O Conselho da Paz é um logro sem futuro

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Ontem teve lugar em Washington a reunião inaugural do Conselho da Paz, uma iniciativa surreal de Donald Trump. Na altura em que escrevo ainda não é público como decorreu a cerimónia. Sei apenas que nenhum país da África subsaariana foi convidado e que os países do G7, bem como a Índia, o Brasil e a maioria da América Latina e outros grandes atores da cena internacional foram simplesmente ignorados. A paz, na conceção de Trump, faz-se sentando à mesma mesa, como membros de pleno direito, Viktor Orbán, o dirigente da UE que merece uma consideração especial da atual administração americana, como Marco Rubio o afirmou claramente esta semana, Alexander Lukashenko, o presidente ilegítimo da Bielorrússia, e Javier Milei, o estapafúrdio chefe do estado argentino.

Tendo em conta a especial natureza do projeto, ainda sugeri que Dom Quixote de La Mancha, um ilustre cavaleiro com um passado egrégio no que diz respeito ao combate contra moinhos de vento, fizesse igualmente parte do Comité Executivo da nova organização. Traria um certo equilíbrio a esse grupo, que compreende entre outros o genro de Trump, Jared Kushner, Steve Witkoff, um grande admirador de Vladimir Putin, e Tony Blair, um político que não perde uma oportunidade quando se trata de ganhar umas coroas ao aconselhar dirigentes cuja reputação precisa de um impulso de marketing na opinião pública internacional. Dom Quixote não foi considerado, porventura por não ter o patrocínio da Heritage Foundation, a autora do Projeto 2025, que está grandemente na base da política seguida pela Casa Branca. Também, por não ter conseguido o apadrinhamento de Benjamin Netanyahu nem do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, o famoso Mohammad bin Salman, ambos ilustres personagens associadas ao novo Conselho da Paz.

Curiosamente, Ajay Banga, o presidente do Banco Mundial, tem um assento efetivo no núcleo duro do Conselho da Paz, no Comité Executivo. Já António Guterres, o secretário-geral da ONU, não aparece em lado algum. As recentes proclamações vindas de Washington sobre a relativa importância do sistema onusiano são mera conversa para embalar a comunidade internacional.

Embora os subordinados de Trump o neguem, o Conselho da Paz é um passo importante para tentar acabar com o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Washington reconhece que o Conselho de Segurança está num impasse sem solução à vista. Não há possibilidade de o reformar e, além disso, dá um poder imenso à China e aos outros países com direito de veto. Trump considera que tudo isso é contrário aos interesses dos EUA e, acima de tudo, à influência na cena global da sua enorme e genial pessoa.

A ideia do Conselho da Paz foi aprovada a 17 de novembro de 2025 pelo Conselho de Segurança da ONU - Resolução 2803 - com um mandato exclusivamente relacionado com a procura de uma solução para a tragédia de Gaza. Seria uma administração de transição, temporária, destinada a coordenar a reconstrução de Gaza e a comandar uma força internacional de estabilização do território.

O organismo inaugurado ontem é algo bem diferente, que não respeita os termos da Resolução 2803 e lhe atribui um mandato supostamente universal. É um abuso de poder e mais um ato de demolição da credibilidade da ONU e do seu órgão central, o Conselho de Segurança. Todos os líderes políticos que recusaram o convite de Trump, incluindo o Papa Leão XIV, compreenderam e desaprovaram as intenções do presidente americano.

A agenda desse Conselho de Paz será decidida por Donald Trump, agora e eternamente. Terá uma enorme componente imobiliária. A paz trumpiana passará a ter uma definição mais empresarial: a submissão do mais fraco diante do mais forte. E a reconstrução significará sobretudo a proliferação dos condomínios de luxo.

Se Dom Quixote, ou um cavaleiro da mesma virtuosa nobreza, tivesse sido admitido como membro teria insistido na inclusão na agenda de situações como a que agora se vive em Cuba. Observadores internacionais consideram que o país enfrenta uma crise socioeconómica e humanitária gravíssima. A comunicação social ocidental, com exceção de alguns jornais de referência, incluindo o Diário de Notícias de ontem, optou pelo silêncio em relação a essa crise, que resulta do agravamento da confrontação política imposta pela Administração Trump. O principal meio de pressão passa pelo bloqueio quase total, desde finais de janeiro, do acesso de Cuba a combustíveis vindos do exterior. Esta decisão de Trump tem provocado a paralisia dos serviços básicos essenciais - saúde, água, alimentos, energia elétrica, tratamento dos lixos e transportes, entre outros. Como noutras situações semelhantes que testemunhei, quem fica na miséria total são os cidadãos comuns. Os dirigentes políticos e quem tem familiares na emigração acabam sempre por encontrar soluções alternativas. Assim, a crise agudiza-se para os mais pobres e a esperada revolta popular não acontece.

Estes bloqueios são uma aposta política inaceitável, a fazerem lembrar os cercos dos castelos e dos burgos sitiados na idade média. Algo que o direito internacional moderno não permite, por se tratar de uma punição indiscriminada, com um impacto geral. Peritos em direitos humanos da ONU classificam o cerco energético como uma “violação grave do direito internacional” e um ato de “coação económica extrema” que ameaça levar a um genocídio por privação de meios de subsistência.

Como se disse recentemente em Davos e em Munique, voltámos às regras de outrora, à força dos canhões.

Felizmente a Ucrânia continua a lembrar-nos a filosofia de Sun Tsu, uma visão que me apraz repetir sempre que oportuno: perante uma guerra de agressão, a paz alcança-se graças à coragem moral e à imaginação estratégica na legítima defesa dos agredidos. Não vejo entre os convidados para o beija-mão de ontem quem possa ter tido a ousadia de lembrar esta verdade a Donald Trump.

Diário de Notícias
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