O meu amigo e antigo aluno Miguel Monjardino tem afirmado com especial ênfase que a ignorância histórica constitui um dos grandes perigos com que nos debatemos no tempo atual. Tem razão. De facto, temos de usar a sabedoria e a leitura para combater a tentação das conclusões precipitadas e a ilusão de que a história se repete. Há necessidade de partir dos acontecimentos e da rigorosa ponderação das circunstâncias concretas. Conhecer a História significa não tentar repeti-la, mas repensá-la a partir da raiz dos problemas e compreender quais as atitudes das sociedades e das pessoas perante o avanço das incertezas. Planear e prevenir é uma receita de urgência. O pai de William Pitt, o jovem, que viria a governar a Albion, como o mais novo primeiro-ministro de sempre, aconselhava-o a preparar-se para as mais elevadas funções públicas, lendo a História da Guerra do Peloponeso de Tucídides (c. 460 a. C. – c. 400 a. C.). Trata-se da mais célebre obra clássica da nossa civilização, que Thomas Hobbes traduziu para inglês e Karl Popper considerou ser um livro insuperável de rigor e compreensão, por se cingir aos acontecimentos e à realidade. De facto, o conhecimento da história humana permite compreender melhor quem somos, de onde vimos e para onde vamos. Como entender a complexa trama do Médio Oriente atual sem recordarmos os impérios da Antiguidade Oriental e Clássica e o seu destino? Quando no centro de Kiev foram atingidos há dias o Mosteiro das Cavernas, contruído no século XI, e a Catedral da Dormição de Maria, classificados como Património Mundial da UNESCO, temos de dizer que foi atingida a Humanidade por um tão hediondo crime de guerra.O conhecimento histórico não pode ser subalternizado, como mera recordação do passado, devendo ser uma exigência do futuro e um sinal de respeito pela perenidade da dignidade humana. Como disse Edgar Morin, urge assumir o desenvolvimento de uma ética do género humano e uma cidadania inclusiva, o que obriga ao conhecimento do tempo e da sua evolução. Manuel Alegre, no seu recente Balada do Corsário dos Sete Mares, lembrou que vivemos um “tempo do avesso”. A palavra está certa e merece lembrança viva. “Este é tempo de tempo obscurecido / tempo sem a certeza do amanhã / as flores que vais colher podem murchar / antes que na palavra o Sol desponte”. Há a repetição de uma busca vã, e a canção torna-se “noite anoitecida”. É um “tempo de já ter visto e de já ter sido / há sombras nas metáforas e na vida”. Afinal, a ignorância histórica não é mais do que a repetição da indiferença, o desconhecimento de que há pessoas e direitos fundamentais, e uma tremenda ignorância de que há desigualdades, de que há injustiças e de que há pobres. Mas sobretudo, há direito a não ser pobre. Será que o esquecemos? Eis o que significa a sobranceria e a ignorância em relação ao tempo e à História. Um velho artista que deu o melhor de si em toda a vida e que hoje teme por perder a tença justa que mereceu, simboliza como não poderemos perder a dimensão da História que é o reconhecimento de que a justiça se faz serenamente com os olhos bem abertos para que um dito fácil de inveja não torne os direitos coisa vã ao sabor de um julgamento insano… “Este é um tempo sem tempo e de um só tema / dai-me um canto sem misseis no poema / para que o tempo torne a ter sentido.”