O cinema português nunca existiu

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Segundo informação disponível no site oficial do Instituto do Cinema e do Audiovisual, em 2025 estrearam-se nas salas 58 “filmes nacionais” - entenda-se, filmes portugueses, mesmo quando, como acontece atualmente em todas as regiões do mundo, resultaram de coproduções com outros países. Desses 58 filmes, 52 foram vistos por menos de 5000 espectadores; 25 não atingiram o patamar dos 1000 espectadores, com 14 a ficarem abaixo dos 500.

O panorama tem um nome: catástrofe. E tanto mais quanto este estado de coisas é acompanhado e, de alguma maneira, sustentado por um panorama em que alguns desses filmes podem apresentar uma paradoxal lista de honrosas presenças em festivais internacionais, por vezes com a obtenção de prémios.

Tempos houve em que alguns dos mais cínicos, em defesa dos filmes que faziam ou queriam que fossem feitos (mas não entram em festivais), gostavam de dizer que havia filmes que, precisamente, seriam apenas “para festivais”. Agora, tal acusação esmoreceu porque, além do mais, qualquer mente sensata reconhece a sua falta de fundamento. O problema não é, nunca foi, a escolha entre um cinema “artístico” e outro “comercial” - seja qual for o filme que nos possa interessar, são as bases de produção e difusão que estão em causa.

Há uma maneira básica de resumir a questão: não há públicos específicos para o cinema português. E não apenas porque não temos no nosso país nada que se pareça com hábitos - como os que França ou Espanha podem exemplificar - que correspondam a uma relação regular com a respectiva produção nacional. Serão esses países paraísos cinéfilos? Tenho dúvidas. Não se trata de dizer que existe uma relação de consumo (a palavra deve ser assumida) gerada por um qualquer infantilismo patriótico - essa relação foi consolidada ao longo de décadas através de políticas de investimento, promoção e difusão metodicamente concebidas e aplicadas.

No nosso contexto, há até filmes portugueses que vivem momentos de alguma glória nas redes (equivocamente) sociais, conseguindo alguns milhares de likes para depois, nas salas, mobilizarem 400 ou 500 espectadores. A moral da história é a mesma: não há públicos específicos para o cinema português. E insisto no plural, “públicos”, até porque, creio, seria salutar superar a herança do tempo em que parecia ser obrigatório escolher entre “Manoel de Oliveira” e “José Fonseca e Costa” - como se, para lá dos legítimos juízos de valor que cada um possa suscitar, houvesse algum motivo consistente para menosprezar o trabalho de um ou de outro.

O dramático encerramento de muitas salas de cinema voltou a trazer para a praça pública a gravidade da conjuntura (cujas complexas ramificações artísticas, económicas e políticas este texto não pretende resumir, nem sequer inventariar). Em todo o caso, à beira de se assinalarem 50 anos sobre o lançamento de Gabriela, continua a ser um enigma indecifrável o facto de, apesar dos frequentes usos da palavra “audiovisual”, a maioria das reflexões sobre o estado das coisas evitar reconhecer que o triunfo da indústria da telenovelas teve (e tem) consequências drásticas na organização de todo o audiovisual português - e, por isso mesmo, na tão propalada “formação de públicos”. A pergunta inevitável, quase sempre evitada, é esta: que se poderia esperar da injeção de infinitas horas de novelas, todos os dias, a todas as horas, ao longo de cinco décadas?

Há um tabu violento que impede todo o país (a começar pela classe política, direitas e esquerdas confundidas) de encarar o facto de todas as instâncias das nossas vidas acontecerem “filtradas” pelos valores dominantes no espaço televisivo. Observe-se o desastre cultural que é a Reality TV. Será que alguém tem o atrevimento de sugerir que mais de duas décadas dos horrores do Big Brother (e suas derivações), todos os dias, a todas as horas, têm sido um contributo adequado para uma mais inteligente compreensão das relações entre homens e mulheres?

Daí também que não adiante encerrar a questão no maior ou menor espaço que os canais de televisão dedicam à cultura cinematográfica (nalguns casos, esse espaço tende para o zero). Reduzir o assunto a uma questão de “quotas” será sempre mascarar o essencial. A televisão das novelas e da Reality TV substituiu uma cultura cinematográfica, literária e artística enraizada em séculos de história por uma cultura consumista, parasitada por muitas formas de marketing, que menospreza a alegria do pensamento. Com mais ou menos futebol, é isso que estamos a viver.

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