O cinema é feito de palavras, bronze e mármore

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Com a estreia do documentário Sophia Setembro de 1963, com chancela da produtora e distribuidora The Stone and the Plot, reencontramos matéria preciosa, sóbria e subtil, capaz de nos levar a repensar essa arte, por vezes tão maltratada, sobretudo desaprendida, que definimos através do verbo “documentar”. Em boa verdade, vivemos enquadrados pelo misto de aceleração e banalização das imagens que tomou o poder em quase todos os territórios do espaço televisivo. Que poder? O de contribuir para reforçar (entenda-se: enfraquecer) uma sociedade em que somos convidados a não olhar, não pensar e, pior um pouco, evitar parar um instante para que algo aconteça na nossa relação com as coisas do mundo.

Filmar a Grécia através das memórias de Sophia.
Filmar a Grécia através das memórias de Sophia. FOTO: DR

Não foi isso que Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) foi fazer à Grécia, em 1963, na companhia de Agustina Bessa-Luís e o marido, Alberto Luís. Talvez que a pergunta inicial formulada pelos realizadores de Sophia Setembro de 1963 – Hugo Pereira e Vanessa Duarte – tenha sido a mais rudimentar: como dar conta dessa viagem através dos meios específicos do cinema? Digamos que rapidamente foram excluídas duas hipóteses tradicionais: este não é um documentário conduzido por uma voz-off entregue à “descrição” do que estamos a ver, como também não se trata de um exercício de acumulação de materiais de arquivo. Claro que poderiam ser vias igualmente criativas (a história do cinema assim o confirma), mas o que aqui acontece é bem diferente.

Enfim, em off escutamos até duas vozes: os autores assumem-se como intérpretes da própria diferença cronológica e existencial que acaba por ser o motor do seu trabalho. Assim o dizem: “2023 não se parece nada com 1963.” Ou ainda, ligando as palavras do diário de Sophia durante a sua viagem, com o presente da viagem que sustenta o filme: “14 de setembro. Os gregos são os únicos homens que mostraram os corpos sem os deformar. Porque neles os corpos não são signo de outra coisa. Os corpos têm uma divindade que lhes é própria, que lhes é não-transcendente, mas imanente.” E um pouco mais à frente: “Os materiais dos gregos são o mármore, o bronze e a palavra, os materiais que resistem ao tempo. Neles, o imediato e a transcendência estão unidos.”

"O filme 'Sophia Setembro de 1963' refaz uma viagem de Sophia de Mello Breyner Andresen à Grécia – é também uma reinvenção só possível em cinema.”

Perante as ruínas da Acrópole, Sophia escreve e o filme vai citando: “Mesmo quebrado, tudo é perfeito.” E a voz feminina do filme acrescenta que é isso que ela vai “escrever amanhã, antes de deixar Atenas.” O amanhã de Sophia transfigura-se no presente do filme, tudo em nome da palavra que resistiu – como se fosse mármore ou bronze. Aliás, o ziguezague narrativo, tocado por uma inusitada sensualidade formal, prosseguirá, agora com a voz masculina, lembrando que “já depois desse amanhã”, três anos após a Revolução dos Cravos, numa declaração para uma câmara da RTP, ela disse: “A realidade não cumpriu aquilo que eu esperava.”

"Eis o ponto de fuga, de uma só vez formal e filosófico, de 'Sophia Setembro de 1963': procurar aquilo que na realidade de 2023 se pode “sobrepor” à realidade de 1963 – por exemplo, parar nos lugares em que Sophia parou (...) ou recolher também pedrinhas do fundo do mar."
"Eis o ponto de fuga, de uma só vez formal e filosófico, de 'Sophia Setembro de 1963': procurar aquilo que na realidade de 2023 se pode “sobrepor” à realidade de 1963 – por exemplo, parar nos lugares em que Sophia parou (...) ou recolher também pedrinhas do fundo do mar." FOTO: DR

Eis o ponto de fuga, de uma só vez formal e filosófico, de Sophia Setembro de 1963: procurar aquilo que na realidade de 2023 se pode “sobrepor” à realidade de 1963 – por exemplo, parar nos lugares em que Sophia parou, encenar uma pose semelhante à que ela fez para uma fotografia ou recolher também pedrinhas do fundo do mar. Não por banal efeito de repetição, antes para cumprir a utopia do próprio cinema. Que utopia? Aquela que André Bazin referia, citado por Godard, ao dizer que “o cinema substitui ao nosso olhar um mundo que se ajusta aos nossos desejos.” Daí que, no seu “suspense” paradoxal, porque realista, este seja um filme de contida alegria fantasista. Daí também a moral da história: “Na nossa fantasia, ela ficou na Grécia.”

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