As recentes eleições para a Duma foram bem encenadas. Confirmaram o controlo interno exercido pelo regime, a decisão de continuar a guerra ilegal contra a Ucrânia e a política estrutural de Vladimir Putin contra a Europa, que evoluiu gradualmente de provocações pontuais para uma estratégia de pressão persistente e calculada.
Moscovo opera em várias frentes complementares: sabotagens, ciberataques, perturbações de sinais eletrónicos, instrumentalização de migrantes, propaganda, intimidação militar e apoio a forças políticas extremistas e pró-russas. O propósito não é destruir de imediato as capacidades ocidentais - não por falta de vontade, mas por cálculo estratégico. Na realidade, trata-se de testar e expor as fragilidades políticas da Europa democrática, com ações cirurgicamente abaixo do limiar do Artigo 5.º da NATO. A autoria destas ações é sistematicamente negada, explorando a lentidão inerente às democracias na obtenção de provas e na tomada de decisões. Putin é um perito na transformação da dúvida política num instrumento de equívocos e na promoção de fraturas entre países aliados.
Esta pressão materializa-se em frentes coordenadas que muitos teimam em tratar como incidentes isolados. A partir de Kaliningrado e de outros pontos não identificados, as perturbações da navegação por satélite são já recorrentes, afetando a aviação e a navegação marítima numa vasta faixa entre a Polónia e a Escandinávia. No plano da sabotagem, aos danos em cabos submarinos de telecomunicações no Mar Báltico desde 2024 soma-se agora a ameaça no Ártico, onde uma unidade militar russa terá estudado formas de desativar os cabos da região. Nas fronteiras terrestres, o instrumento migratório orquestrado via Bielorrússia readaptou-se: respondendo às barreiras físicas erguidas na Polónia, a pressão desviou-se para a Lituânia e a Letónia, através de novas táticas.
Tratada muitas vezes de forma isolada por certos setores políticos e por parte da opinião pública, a guerra de agressão contra a Ucrânia não é um conflito paralelo: é a manifestação mais brutal desta mesma estratégia. Há quem ainda não capte esta ligação, vendo o apoio a Kiev como um mero gesto de solidariedade ou uma obrigação dificilmente justificável - um erro de leitura trágico. Enquanto no resto do continente Moscovo atua na zona cinzenta para evitar uma retaliação coletiva, na Ucrânia recorre à força militar direta para atingir o mesmo fim: subjugar as democracias e redesenhar unilateralmente a segurança europeia. O apoio à Ucrânia tem, por isso, de estar inequivocamente integrado no quadro geral da defesa da Europa democrática. A Ucrânia é a nossa primeira trincheira.
A vulnerabilidade da Europa é, contudo, sobretudo política e interna. O Kremlin encontra no próprio coração do sistema europeu cavalos de Troia: certos partidos e movimentos extremistas. Quer por submissão, convergência ideológica ou financiamento, quer por antiamericanismo ou repúdio xenófobo da integração europeia, estas forças acabam por servir os objetivos de Moscovo. Ao normalizarem a narrativa russa, atacarem a NATO, dificultarem a ajuda a Kiev e semearem o ceticismo nas instituições europeias, estes extremos amplificam a guerra híbrida.
A resposta europeia é perigosamente assimétrica. No flanco oriental e nórdico, a resposta à ameaça já é doutrina de Estado: a Finlândia integrou a análise híbrida na sua defesa total, a Estónia investe na resiliência digital, e Varsóvia e Vilnius preparam-se para cenários de escalada. Na Europa ocidental e meridional, o despertar foi mais tardio. Embora haja mudanças de perceção e política em Berlim, Paris, Londres, Roma e até em Bruxelas, a resposta continua demasiado lenta, burocrática e fragmentada.
Este atraso revela uma certa incompreensão da visão autocrática do regime liderado por Vladimir Putin. O risco abrange toda a Europa fora da órbita russa, da frente ucraniana e da região báltica até ao Atlântico Norte. Quem, em Lisboa ou noutras capitais europeias, julga a Rússia longínqua e o seu país a salvo de ataques híbridos revela uma atitude confrangedoramente ingénua. Numa guerra multidimensional, a geografia tradicional já não é um escudo. Subestimar este alcance é pôr diretamente em perigo as infraestruturas críticas portuguesas - com destaque para os cabos submarinos atlânticos, os portos, os aeroportos e as redes energéticas. É esquecer que essas ligações, se sabotadas, afetarão não apenas o nosso país, mas uma boa parte do Ocidente.
Esta vulnerabilidade é hoje agravada pela incerteza em torno do compromisso americano. A distância política entre a Europa e os EUA continua a aumentar. São duas perspetivas aparentemente em processo de divórcio. A anunciada revisão da postura norte-americana na Europa, com a redução de efetivos e maior responsabilidade convencional para os aliados, tem justificação e, a prazo, reforça a autonomia europeia, mas exige um calendário realista. O Kremlin conhece bem a dependência da dissuasão ocidental face à credibilidade do seu fiador, e explora qualquer hesitação para intensificar a pressão.
A Rússia tira partido da nossa dificuldade em operar nesta zona intermédia entre a paz e a guerra. Já não se limita a testar o nosso grau de tolerância; os sinais que nos envia devem inquietar-nos. Muito provavelmente não agirá contra a nossa parte da Europa do mesmo modo que o faz na Ucrânia desde 2014, com a ocupação da Crimeia e a guerra no Donbass, desde 2022, com a invasão em larga escala. Putin reconhece que um ataque a um membro da NATO pode desencadear a resposta coletiva prevista no Artigo 5.º e que ações clandestinas, incluindo as de falsa bandeira, dificultam a atribuição inequívoca da responsabilidade. A sua direção política prefere as ações clandestinas, próprias dos serviços secretos, agências em quem Putin deposita uma confiança superior às forças armadas. Chegou, assim, o tempo de a Europa democrática abandonar a sua velha ingenuidade, crescer e ocupar o lugar que lhe cabe à mesa das relações internacionais: Diplomacia e Defesa.