O filme Aniquilação (2018), protagonizado por Natalie Portman, é muito mais do que uma incursão pela ficção científica de terror. É, na sua essência, uma representação visual do choque inevitável entre a natureza humana e a realidade nua e crua. Num mundo onde somos constantemente bombardeados por narrativas que tentam distorcer os factos para que estes caibam em moldes ideológicos — seja à esquerda ou à direita — o percurso de Lena (Portman) no centro do "Brilho" (uma entidade extraterrestre que distorce tudo o que toca) oferece uma lição de sobrevivência para o Homem contemporâneo que se recusa a ser apenas mais uma "população implantada" de ideias alheias.A esquerda moderna vive hoje mergulhada num irrealismo que tenta tratar a sociedade como um laboratório de engenharia social. Existe a perigosa crença de que a realidade pode ser "regulada" em cada detalhe e "planeada" a partir de um centro de poder benevolente, ignorando a complexidade orgânica do mundo. No filme, esta mentalidade é espelhada na organização que tenta conter o Brilho: enviam-se especialistas com protocolos rígidos, esperando que a realidade se submeta à lógica burocrática e ao desejo dos engenheiros sociais.Contudo, a realidade — tal como o fenómeno biológico do filme — é refratária e totalmente indiferente a planos. Quando os factos não se conciliam com a ideologia, a esquerda opta (sempre!) por ignorar os factos ou por tentar silenciá-los, o que leva inevitavelmente à estagnação ou ao colapso sistémico. Tentar impor um modelo utópico a um sistema que está em mutação constante é uma forma de arrogância intelectual que termina em aniquilação (trocadilho intencional).A vida, na sua forma mais bruta, não aceita ser contida por folhas de Excel ou por visões de um mundo perfeito que nunca existiu, nem alguma vez existirá.No lado oposto do espectro, o conservadorismo atual (em grande parte como reação à loucura que vê nas ruas e na TV) debate-se com uma nostalgia paralisante. Há um desejo latente de regressar a uns "bons velhos tempos" que, na verdade, nunca existiram da forma como são romantizados. É a falácia do Navio de Teseu levada ao limite político: acredita-se que se pode manter a mesma estrutura social e identitária trocando todas as pranchas e ignorando o desgaste do tempo, mantendo um espírito original intacto e intocável. No Brilho de Natalie Portman esta visão é severamente punida. Aqueles que tentam manter-se "puros" e imutáveis são os primeiros a perder a sanidade e a integridade física.O mundo muda, as células dividem-se e a identidade evolui de forma irreversível. O conservadorismo que se limita a olhar para trás, tentando congelar o tempo através de uma narrativa de perda constante, torna-se tão disfuncional como o planeamento utópico. É uma recusa infantil em aceitar que a realidade exige movimento e que a preservação de algo vivo requer, paradoxalmente, a aceitação da sua transformação. Quem se agarra ao passado com demasiada força acaba por ser esmagado pelo peso do presente.A este cenário de polarização ideológica junta-se um fator novo e igualmente corrosivo: a preguiça intelectual da nova geração — com tempos de retenção reduzidos a segundos e educados sob princípios de que a simples participação já vale um prémio. Habituados a observar a realidade através de ecrãs, algoritmos e filtros de conforto, muitos jovens perderam o instinto de sobrevivência e, mais grave ainda, a agência individual. Estão dispostos a deixar que o mundo mude em seu redor sem qualquer esforço de adaptação ativa, ou a aceitar que o Estado planeie cada detalhe das suas vidas em troca de uma falsa segurança, sem sequer questionar o mais básico: que custo tem (literalmente, quem paga?) o serviço.No filme, esta passividade e falta de garra seriam uma sentença de morte imediata perante a força transformadora do Brilho. Ou, dito de outra forma, os mais novos são os primeiros a ser aniquilados.A sobrevivência (spoiler!) de Lena não é fruto da sorte ou de uma intervenção externa, mas da sua capacidade de agir como o "Espectador Imparcial" de Adam Smith. Ela olha para os factos da sua própria vida — incluindo os seus erros, as suas traições e as suas feridas — sem o filtro da autocomiseração ou da desculpa ideológica. Ela não espera que um planeador a salve, nem chora por um passado que ela própria ajudou a destruir. Ela joga com as cartas que tem.Esta é a verdadeira agência individual: a coragem de olhar para o abismo da realidade e decidir que, embora não possamos controlar as forças que nos moldam, podemos controlar a forma como nos reconstruímos para as habitar. A preguiça de quem espera que a realidade se adapte a si é o caminho mais rápido para a obsolescência.O final do filme, frequentemente interpretado como inquietante ou assustador, é na verdade um sinal de esperança realista. Os seres "híbridos" finais têm uma oportunidade de felicidade que os humanos originais, presos em ciclos viciosos de mentiras, culpa e dogmas, não possuíam. Ao aceitarem a mutação, ao aceitarem que a realidade ganhou e que eles mudaram com ela, encontraram uma paz que está vedada aos ideólogos e aos preguiçosos.Na sociedade, tudo começa no indivíduo. A felicidade e a sanidade num mundo em colapso dependem da capacidade de aniquilar as nossas velhas ilusões — quer sejam as utopias planeadas da esquerda ou as nostalgias imóveis da direita — e abraçar a honestidade de quem somos agora. Mas para o fazer é preciso vontade. A realidade não pode ser evitada, nem pode ser controlada por decretos ou por saudades. Pode e deve ser vivida com a dignidade de quem escolhe a verdade factual sobre o conforto da mentira, adaptando-se para sobreviver com o brilho de quem finalmente vê as coisas como elas são.A realidade, simplesmente, é.