Há uma patologia crescente no discurso de uma certa direita portuguesa — do atual PSD ao Chega, passando pela Iniciativa Liberal — que merece ser nomeada com clareza: a transformação do Partido Socialista no bode expiatório de todos os males nacionais. Um exercício de diabolização sistemática que não só empobrece o debate democrático como apaga, com flagrante desonestidade intelectual, décadas de história partilhada e de conquistas que definiram o Portugal moderno.Comecemos pelos factos. Em Portugal, desde abril de 1974, e na Europa, desde o início da Revolução Industrial, os socialistas estiveram na linha da frente das transformações que mudaram para melhor a vida concreta de milhões de pessoas.Foi com governos socialistas que se criou e consolidou o Serviço Nacional de Saúde, que se universalizou o acesso à educação pública, que se construiu uma rede de proteção social capaz de amparar os mais vulneráveis, que se projetou a investigação e o ensino superior no país. Foi o PS que, nos anos mais difíceis da consolidação democrática, soube equilibrar a radicalidade revolucionária com a estabilidade institucional de que o país carecia, fruto da visão esclarecida de Mário Soares e de outros democratas moderados que corajosamente resistiram ao ruído e aos excessos da época.Na Europa, a família socialista e social-democrata foi o motor decisivo da construção europeia, do alargamento aos países do sul e do leste, da criação do euro, da Carta dos Direitos Fundamentais e das políticas de coesão que permitiram a Portugal e às suas regiões - incluindo os Açores e a Madeira - recuperar de décadas de atraso estrutural.Sem os fundos europeus negociados por governos e famílias políticas progressistas, inclusive os que hoje estão em execução, o Portugal de hoje seria irreconhecível. Sem o compromisso socialista com a integração europeia, a democracia portuguesa teria tido um caminho muito mais tortuoso.É neste contexto que se torna incompreensível a narrativa que hoje domina a direita portuguesa. Uma narrativa que ignora cinquenta anos de história comum e que pretende, imaturamente, reduzir o PS a um partido de incompetentes, gastadores e corruptos. Um discurso que, por receio ou despeito, faz do PS uma ameaça existencial em vez de o reconhecer como parceiro insubstituível na construção do Estado de direito democrático.O que esta direita embrutecida esquece - ou finge esquecer - é que PS e PSD construíram juntos o essencial do consenso fundador da democracia portuguesa. A Constituição de 1976, revista com o contributo decisivo de ambos. A permanência na NATO, reafirmada por sucessivos governos pluripartidários. A integração europeia, projeto transversal que nunca foi propriedade exclusiva de nenhum partido. Estes não foram compromissos impostos por uma maioria socialista a uma minoria. Foram, antes, pactos de civilização celebrados entre adversários que souberam ser parceiros quando o país precisou.A polarização que hoje se instala não é inocente. Serve propósitos eleitorais de curto prazo, alimenta audiências e redes sociais e satisfaz uma base ruidosa que prefere ter inimigos em vez de adversários. Tem, no entanto, um custo elevadíssimo: corrói a confiança nas instituições, impossibilita acordos necessários e abre espaço ao populismo que, este sim, ameaça a democracia de forma real e comprovada. Quando o Chega cresce, não cresce apesar desta retórica, mas sim por causa dela.O socialismo democrático não precisa de pedir desculpa por existir, nem de justificar o seu lugar na história portuguesa e europeia. O PS tem erros, falhas e responsabilidades políticas que devem ser assumidas. Mas tal não significa apagar o seu papel central na construção da democracia portuguesa nem, muito menos, transformá-lo no inimigo moral da nação. O PS tem um legado de que se pode e deve orgulhar sem complexos: o de ter ajudado a construir um país mais justo, mais livre e mais europeu.A democracia portuguesa não precisa de uma direita que diaboliza e reescreve a história, mas de uma direita que reconheça, quando for caso disso, que há causas maiores do que a próxima eleição.O consenso não é fraqueza. É a base sobre a qual cinquenta anos de democracia foram construídos e é, para além de óbvia maturidade, a essência do contrato social e intergeracional que cimenta a pertença à comunidade nacional. Destruí-lo em nome de uma guerra cultural importada é, para além de evitável e desnecessário, uma verdadeira traição ao patriotismo que dizem perfilhar.