Em 1982, Tom Bradley, presidente democrata da Câmara de Los Angeles, liderava as sondagens para governador da Califórnia na véspera da eleição com confortável vantagem de seis pontos sobre o republicano George Deukmejian.
No dia da votação, porém, Deukmejian venceu por um ponto, surpreendendo os diretores dos institutos de pesquisas.
Nascia o “Bradley Effect”: segundo estudo posterior da Universidade de Berkeley, muitos votantes disseram nas sondagens votar em Bradley, negro, para não parecerem racistas mas na solidão da urna optaram por Deukmejian, um branco descendente de arménios.
O “voto conservador envergonhado” é uma teoria semelhante mas do outro lado do Atlântico: em 1992, o trabalhista Neil Kinnock estava à frente do conservador John Major por um a dois pontos, segundo as sondagens de 48 horas antes da votação; no fim das contas, ganhou Major, sucessor de Margaret Thatcher, por sete pontos e meio de avanço.
Voltando ao lado de cá do Atlântico, mas no hemisfério sul, na primeira volta das presidenciais de 2022 as pesquisas do Datafolha e da Quaest, principais institutos brasileiros, atribuíam vantagem de Lula da Silva sobre Jair Bolsonaro de 14 e 13 pontos, respetivamente. Somados os votos, a diferença foi de meros 5%.
Bradley Effect? Os politólogos duvidam: se Lula representou nos anos 90 o Brasil marginalizado, hoje é sobretudo um político do establishment preferido das elites cultas e cosmopolitas.
Voto conservador envergonhado? Também não, defendem os académicos: a eventual timidez em admitir voto em Bolsonaro, machista e homofóbico assumido, resumiu-se a 2018, hoje é assumida.
A explicação pode, por isso, estar num exemplo americano mais próximo: em 2016, Donald Trump desmoralizou os institutos de sondagens ao vencer a eleição dos EUA a Hillary Clinton. Segundo a American Association for Public Opinion Research (AAPOR), organização que reúne 2000 especialistas em pesquisas, não houve um Bradley Effect de género e também não foram detectados indícios de “voto conservador envergonhado” porque os eleitores de Trump foram provando não ter vergonha, antes um orgulho cego, em se assumirem MAGA. Lembra o estatístico Raphael Nishimura, ouvido pela BBC Brasil, que a AAPOR concluiu, em vez disso, que os mais radicais MAGA (assim como os mais ferozes bolsonaristas) se recusaram a responder a sondagens, vistas como uma das peças de um enorme complot contra os seus candidatos.
Colocando a lupa no Brasil, Maurício Moura, da The George Washington University, cunha um efeito local: o “antipetismo de chegada”.
De acordo com o analista, citado pelo Canal Meio, “mesmo quem acha Flávio Bolsonaro corrupto acabará por escolher quem tem mais possibilidades de derrotar o PT graças ao ‘antipetismo de chegada’, como aconteceu com Aécio Neves, em 2014, e Jair Bolsonaro, em 2018, que ganharam na reta final 10 e 12 pontos, respetivamente, dos demais candidatos por voto útil’”.
É um alento para Flávio.
Um alento para Lula é que em 2022 ele soube bater, além de Bolsonaro, o tal antipetismo de chegada.