O amor de mãe não é inato

Rute Agulhas

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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O caso das duas crianças abandonadas em Alcácer do Sal, deixadas sozinhas e de olhos vendados sob o pretexto de um “jogo”, obriga-nos a enfrentar uma realidade que continuamos a evitar: o amor de mãe não é inato, não é garantido e não é, por si só, uma proteção automática. A sociedade insiste em acreditar que a maternidade transforma qualquer mulher numa cuidadora sensível e disponível, mas a parentalidade não nasce por milagre. Constrói-se. E nem sempre se constrói bem.

Quando repetimos, “mas que mãe é esta?” ou “uma mãe nunca faria isto”, estamos a apoiar-nos numa ideia romântica da maternidade, não na realidade. Elisabeth Badinter, no seu livro O Amor Incerto, desmonta precisamente este mito: o amor materno não é uma certeza biológica, mas uma construção histórica, social e emocional. Ao longo dos séculos, houve mães profundamente dedicadas e mães profundamente ausentes; houve cuidado e houve abandono. A autora mostra que a maternidade não é um instinto universal, mas um vínculo que depende das condições de vida, da saúde mental, da história pessoal e do suporte disponível. E quando estas dimensões falham, o amor pode não surgir - ou pode não ser suficiente para garantir cuidado.

É isso que vemos em muitos casos: o problema não é a ausência de amor, é a ausência de cuidado. Uma criança não precisa de um amor idealizado; precisa de segurança, previsibilidade, empatia e adultos capazes de avaliar o risco. Vendar os olhos de uma criança e deixá-la sozinha não é uma brincadeira mal pensada. É uma falha grave na função parental.

A crença cultural no “instinto materno” tem consequências reais: impede-nos de identificar negligência, de apoiar mães que precisam de ajuda, de intervir quando a criança está em risco e de responsabilizar comportamentos que colocam vidas em perigo. A romantização da maternidade protege os adultos, mas não protege as crianças.

Neste caso, porém, houve alguém que fez exatamente o que a sociedade tantas vezes não faz: não virou a cara para o lado. Uma pessoa passou pelas crianças, percebeu que algo estava errado e agiu. Não ignorou. Não relativizou. Não esperou que “alguém” fizesse alguma coisa. Foi essa intervenção - simples, humana e corajosa - que protegeu duas crianças que estavam vulneráveis e assustadas. É este o modelo de comunidade que precisamos: adultos atentos, capazes de reconhecer sinais de risco e de agir sem medo de “se meter”.

Por isso, a pergunta não é “como é possível uma mãe fazer isto?”. A pergunta certa é: “Que sinais não soubemos ler ou minimizamos antes de isto acontecer?” Porque sempre que uma criança é colocada em perigo, o que falhou não foi apenas a mãe. Falhou a rede, falhou a comunidade, falhou a ideia errada de que a maternidade é sempre amor, sempre cuidado, sempre proteção.

O amor materno é incerto e as crianças pagam o preço do mito. Por isso, proteger crianças exige coragem para abandonar mitos.

O amor de mãe pode ser incerto. Mas a proteção infantil não pode ser.

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