Na madrugada de 15 de Setembro, caças italianos do policiamento aéreo da NATO abateram sobre a Lituânia um drone vindo provavelmente da Bielorrússia, o primeiro ali abatido e que, segundo a Força Aérea lituana, transportaria explosivos. Dois dias antes, alarme igual, Aeroporto de Vilnius fechado, caças no ar. Eram aves. O episódio parece cómico e não é: o bando produziu de graça, e sem autor, parte do efeito que o drone produziu com custo, e uma intercepção com dois caças pode custar perto de cem mil dólares antes mesmo de se disparar um míssil. Quando isso acontece, o problema já não está no espaço aéreo.
Para perceber onde está, é preciso ir buscar dois homens que nunca se encontraram.
Vladimir Lefebvre nasceu em Leninegrado, foi investigador militar soviético e morreu professor na Califórnia. Deixou-nos o controlo reflexivo, “refleksivnoe upravlenie” no original: o processo pelo qual um adversário entrega ao outro a base sobre a qual este decidirá. Era a resposta soviética à teoria dos jogos, em que não se calcula a jogada alheia, fornecem-se os pressupostos de onde ela sairá. E o critério de êxito é contra-intuitivo: quando corre bem, o alvo não se sente confuso, nem pressionado, sente que decidiu bem e por vontade própria.
Nada disto flutua no ar. A doutrina russa inscreve-o no confronto informacional, técnico e psicológico, porque não se entregam premissas a quem decide, sem antes moldar o que ele vê e tem por credível. A mensagem e o canal são o instrumento. A decisão é o alvo.
John Boyd era piloto de caça americano e nunca publicou um livro. Deu-nos, entre outras coisas, o ciclo OODA: observar, orientar, decidir, agir. O seu contributo maior não é a velocidade, é a segunda fase. Orientar é onde estão os modelos mentais com que interpretamos o que vemos, e determina o que olhamos a seguir. Uma orientação distorcida não produz só decisões erradas, produz quem procure os dados que as confirmam.
Junte-se o soviético ao americano e a guerra híbrida fica legível. Boyd ataca o ciclo inteiro pelo tempo, e o sintoma é visível: confusão, desordem, colapso. Lefebvre ataca apenas a orientação, e em silêncio. Daí a preferência de Moscovo pela acção ambígua: uma agressão assinada facilitaria a resposta política comum e poria a aliança em movimento, ao passo que a incursão de autoria incerta pode até ser abatida, a intercepção militar funciona e funcionou, sem que se resolva a divergência entre 32 capitais sobre o passo seguinte. O que emperra não é o caça, é a decisão política, e o artigo 4.º prevê consulta, não autorização automática.
A ambiguidade sobre a origem pode ser parte da operação, ainda que não prove que ela exista. E convém dizê-lo, porque a informação evoluiu: o presidente lituano admitiu, entretanto, que o drone se teria desviado de uma missão contra a Ucrânia. O episódio ilustra uma vulnerabilidade, não demonstra uma intenção. Mas a vulnerabilidade é o ponto, porque é dela que uma operação de controlo reflexivo se serviria, exista ela ou não neste caso.
E chegamos à parte incómoda. Se o objectivo não é que acreditemos seja no que for, mas que demoremos a decidir, cada semana passada a discutir se era drone ou ave, russo ou bielorrusso, se cabe no artigo 4.º, é uma semana em que o efeito é produzido por nós, sem custo para quem o quis. O debate não é a reacção à operação, é o produto dela. Esta crónica incluída.
Não se conclua que o remédio é o silêncio. Não decidir também é decidir, e é a decisão que interessa ao adversário. O remédio é encurtar a orientação: atribuir depressa, publicar a atribuição mesmo quando incomoda e fixar, de antemão, a resposta devida a cada tipo de incidente, para que nenhum reabra a discussão de raiz. Quem responde por critérios definidos de antemão é mais difícil de conduzir.
Uma ressalva, porque também aqui se erra por excesso. O controlo reflexivo é doutrina, não mecanismo provado, e boa parte da literatura Ocidental aplica-o para trás, a comportamentos já observados. Explicar toda a hesitação europeia como desenho de Moscovo retira-nos agência e é, em si mesma, uma oferta ao adversário. Nem tudo o que corre mal na Europa foi decidido lá.
Mas quem decide sem saber de onde lhe vieram as premissas já não está a decidir sozinho.
Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico