O alerta de uma distopia

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O tempo da Feira do Livro de Lisboa é sempre especial, uma vez que evoca o prazer da leitura e a descoberta da criatividade literária e o encontro com os clássicos e os modernos. Há dias, lembrámos os 55 anos da tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, na Gulbenkian, da República de Platão e a recente publicação da Teoria dos Sentimentos Morais, de Adam Smith. São dois exemplos de uma evocação para além do tempo.

Na distância dos séculos, pudemos compreender como os clássicos chegam às classes escolares para se tornarem preciosas referências com vocação de celebração futura. O mesmo se diga no caso do Oceano Luso-Índico, de Luís Filipe Thomaz, também há dias lançado, em que uma extraordinária viagem histórica nos aproxima de um mundo que se foi tornando global e universalista.

Através do livro descobrimos a Humanidade. E podemos dar um excelente exemplo das virtualidades da literatura num pequeno romance de antecipação, da autoria de Amadeu Lopes Sabino, agora chegado às livrarias. O Futuro Anterior (Guerra e Paz) é a demonstração de que a literatura permite alcançar horizontes que levam porventura a uma melhor compreensão da Humanidade. Neste caso, somos levados à origem fantástica de um divertimento literário, que liga um missiva misteriosa vinda do arquipélago de Svalbard no Ártico a uma base imaginária de naves interestelares na Ilha Terceira, envolvendo a personalidade difusa e incerta de Allan Gomez-Elgar.

Daqui parte o autor para escrever o seu romance. E assim reencontramos o espírito de Jorge Luís Borges, como o bibliotecário exemplar capaz de rearranjar e reinterpretar o vasto universo da literatura e do conhecimento humano. E o romance liberta-se dos constrangimentos temporais, sendo o autor levado a reinventar o que é desafiado a escrever. Misturam-se as perspetivas sincrónica e diacrónica. Num complexo caleidoscópio de influências, a ficção científica, a reflexão filosófica e a sátira política tornam-se omnipresentes. Uma distopia alucinante em fascinante prosa relaciona uma sobreposição de tempos e de mundos.

Karel Löwenthal está preso, acusado de subversão. A etérea e real Afrodite compreende-o e protege-o. Um universo de tensões políticas envolve a Terra, a Lua e Marte. E a influência do modelo do Império Unificado de Marte está subjacente a este estranho mundo. O grande Império do Meio projeta uma nova engenharia politica na sociedade humana - e avança. “O presente imita cada vez mais o futuro”. Um centro de controlo do espaço dedica-se à espionagem dos movimentos e dos contactos dos cidadãos. Reunidos em Sagres estão os representantes das religiões de todos os continentes para negociar um laborioso sistema de equivalências das divindades.

Os temas sucedem-se: um Congresso Constitucional Europeu fala do direito e do torto; o Moscow Beauty Center é um bazar que remodela corpos e almas; a sabedoria do mundo antigo mistura-se com a ficção… “A felicidade dos povos exigia a segregação dos passadistas e dos futuristas, epítetos pelos quais o poder político passou a designar os opositores do regime.” Havia que isolar os agitadores. Os povos da Caverna, algures no espaço, habituados à penumbra do céu artificial cinzento baço defendem-se da claridade… Lúcifer é o guardião dos arquivos da Humanidade.

A imaginação cultiva-se. Impõe-se entender que o presente pode ser percebido a partir de uma projeção do futuro. Eis o que está ao alcance da literatura.

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