As manifestações ocorridas em Londres no passado dia 16 de Maio constituem um sinal político que a Europa faria mal em ignorar. Para além da leitura superficial que reduz os acontecimentos ao confronto entre activistas pró-Palestina e movimentos nacionalistas, importa reconhecer aquilo que verdadeiramente emergiu nas ruas britânicas: uma profunda crise de confiança entre governantes e governados relativamente às políticas migratórias das últimas décadas.Durante anos, parte significativa das elites políticas europeias tratou qualquer discussão sobre imigração, integração ou identidade nacional como matéria moralmente interditada. O resultado foi a substituição do debate racional pela acumulação silenciosa de tensões sociais que hoje se manifestam de forma cada vez mais visível.Portugal não está imune a este fenómeno. Pelo contrário: atravessa actualmente uma transformação demográfica acelerada sem que exista capacidade estrutural para lhe responder com equilíbrio e prudência. O problema não reside na imigração em si (historicamente presente nas sociedades abertas) mas na ausência de planeamento político sério relativamente à capacidade de integração no país.Nos últimos anos, os governos socialistas promoveram uma política de abertura migratória particularmente permissiva sem assegurar, em paralelo, o reforço das infra-estruturas públicas indispensáveis à coesão social. Habitação inacessível, pressão sobre o SNS, degradação dos serviços públicos, precarização laboral e perda de poder de compra constituem hoje realidades evidentes para amplos sectores da população. Ignorar a relação entre estes factores e o aumento súbito da população residente não representa lucidez humanista; representa irresponsabilidade política.Uma democracia madura deve conseguir distinguir entre acolhimento responsável e ausência de critérios. Um Estado soberano tem não apenas o direito, mas o dever, de regular fluxos migratórios de acordo com a sua capacidade efectiva de integração económica, social e cultural. Quando as instituições recusam discutir estes temas com seriedade, deixam inevitavelmente espaço ao crescimento dos radicalismos. A estabilidade democrática depende também da capacidade de reconhecer limites, proteger a coesão nacional e preservar a confiança dos cidadãos no contrato social que sustenta a vida colectiva. Seria bom que Portugal visse o que se passa no Reino Unido para não ter de dizer “tarde demais”.