Num jardim de Hoboken

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Será que o leitor se lembra da cena da luva no filme On the Waterfront / Há Lodo no Cais (1954), de Elia Kazan? Não, não estou a fazer um teste cinéfilo, quanto mais não seja porque, ao contrário do que dizem alguns estafados lugares-comuns, a cinefilia nada tem que ver com a mera acumulação, muito menos com a ostentação, de um “saber” feito de títulos e datas, nomes disto e daquilo... Acontece que cada um de nós, enquanto espectador, possui uma história pessoal (que é também uma demanda cultural) que distingue a nossa visão da visão de qualquer outra pessoa. Entenda-se: não é “melhor”, nem “pior”. Apenas nos ajuda a perceber um pouco do desenvolvimento e da consolidação dessa história, desde logo em função da idade de cada um – e, em particular, da época em que cada um começou a ver filmes.

Não direi que é uma questão de geração (aliás, a palavra “geração” tende a atrair generalizações totalmente disparatadas), mas há espectadores com quem já tive o gosto de partilhar uma mesma admiração pela dita “cena da luva”. Simplificando, temos Marlon Brando no papel de Terry Malloy, ex-pugilista que trabalha nas docas de Hoboken, Nova Jérsia. E temos também Edie Doyle, interpretada por Eva Marie Saint, uma jovem da mesma zona que, por vezes, parece querer disfarçar a sua presença com a própria timidez.

Simplificando ainda mais: o filme faz-nos perceber que existe uma atração mútua entre Terry e Edie, em boa verdade uma pudica aproximação. Na sua primeira conversa, deambulam por um jardim de Hoboken. Está frio e Terry diz: “Não tem de ter medo de mim, não lhe vou morder.” Terry quer saber se o colégio religioso que ela frequenta faz com que Edie queira ser freira... Ao responder, Edie tira um par de luvas do bolso do sobretudo, mas deixa cair uma delas. Terry apanha a luva, mas não a devolve: senta-se num baloiço que há no jardim e vai falando enquanto enfia a mão esquerda na luva de Edie...

A cena é maravilhosa, não apenas por causa da luva, mas também através dela e da sua manipulação por Terry - manipulação que apenas podemos classificar como temperada por uma ternura que está para lá de qualquer palavra. Aliás, os gestos hesitantes de Edie permitem perceber que ela não sabe muito bem se deve ou não pedir a devolução da luva.

Um pouco mais à frente, pensando em tempos de juventude, Terry diz que, provavelmente, ela não se lembra dele. Responde Edie: “Lembrei-me logo no primeiro momento em que o vi.”

Marlon Brando e Eva Marie Saint: memórias de 1954.
Marlon Brando e Eva Marie Saint: memórias de 1954. FOTO: Arquivo

Tanto bastaria para admirarmos a delicadeza da encenação e, em particular, os afetos que contaminam cada instante do que nos é mostrado. Seja como for, sabemos um pouco mais sobre o que ficou filmado – e eternizado. É o próprio realizador quem nos ajuda. Na verdade, a queda da luva não estava prevista. Kazan esteve quase para parar a filmagem e pedir um novo “take”, mas conteve-se quando viu que Brando transformava o incidente num precioso detalhe anímico, capaz de enriquecer toda a situação – e acrescentava que esse era também um sinal da grandeza artística e humana do ator. Sem esquecer que Eva Marie Saint respondeu, transformando a sua hesitação, enquanto atriz, num suplemento emocional da própria personagem.

Marlon Brando e Eva Marie Saint ganharam Óscares (ator e atriz secundária), com Há Lodo no Cais a arrebatar um total de oito estatuetas douradas referentes à produção de 1954, incluindo Melhor Filme e Melhor Realização. Eva Marie Saint morreu na passada quinta-feira, 6 de outubro – contava 102 anos.

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