Não se luta com um porco?

Pedro Tadeu

Jornalista

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Um dos lugares-comuns que mais me irrita é esta citação, aplicada ao debate político: “Nunca lutes com um porco; ficas todo sujo, e ainda por cima o porco gosta.”

De criação erradamente atribuída ao escritor Bernard Shaw (se ele a disse, foi para replicar um dito que vinha de trás), a citação apócrifa desse socialista fabiano tem servido para promover a ideia de que não vale a pena debater, nos media, com fascistas ou com populistas.

A frase, nesse contexto, peca logo pela contradição ideológica e ética: ao classificar o adversário político como “porco”, o “democrata” que a diz está a usar as mesmas técnicas de desumanização e bestialização que critica violentamente, com razão, aos racistas, aos neonazis, aos machistas, aos homofóbicos, aos populistas mais estúpidos e a tantas outras variantes da maldade política. Se o democrata usa o insulto animalesco como arma política, como pode querer impor que essa mesma arma não seja usada contra ele?

Essa frase revela também que quem a diz sucumbiu ao medo e à preguiça.

Em primeiro lugar vem o medo de o “democrata” ser derrotado, humilhado e insultado pelas técnicas de demagogia e agressividade do adversário. Pode acontecer, mas... e então? O não poder cantar, circunstancialmente, vitória num debate junto de meia dúzia de amigos é razão para fugir à luta política? Isso não é falta de comparência? Isso não é cobardia?

Mesmo derrotada (e como é subjetiva e tola essa qualificação aplicada ao confronto de ideias), a mensagem que o “democrata” tem para passar num debate com um populista de direita não terá, no mínimo, sensibilizado algumas pessoas que a ouviram? E isso não é útil? A alternativa, que é a de deixar o adversário usar livremente, sem qualquer confronto, o imenso tempo mediático de que dispõe, não é pior?

Em segundo lugar, há a preguiça de trabalhar a preparação de um debate desses com uma pessoa que usa sistematicamente a mentira, a manipulação, a interrupção, a hostilidade, a violência verbal. Isto exige a construção de uma argumentação capaz, adequada a esse “campo de batalha”, à “pocilga do porco”, que não é fácil de encontrar e que, ainda por cima, obriga a ter de explicar conceitos básicos que julgávamos estarem solidamente enraizados na sociedade.

Ao debater com um racista, não basta dizer que o racismo é mau, temos de explicar porquê.

Ao debater com um neofascista, não basta dizer que o fascismo é mau, temos de explicar porquê.

Ao debater com um homofóbico, não basta dizer que a homofobia é má, temos de explicar porquê.

É difícil, dá trabalho e o resultado é incerto, mas, se isso não for feito, se esse exercício não for tentado uma vez, outra, outra e mais outra vez, com maior ou menor sucesso pontual, a derrota global dos democratas é mesmo certa.

Além disso, nos seus princípios básicos, este deveria ser um trabalho coletivo, solidário entre todos os que se opõem à extrema-direita. Fez-me muita impressão que os “democratas” portugueses com voz pública (com algumas raras exceções, notavelmente a de Paulo Baldaia) passassem as últimas duas semanas a atirar-se a Pacheco Pereira por, alegadamente, ele ter perdido o debate com André Ventura, em vez de usarem tanta “verve” para explicar as manipulações da história do pós-25 de Abril que o líder do Chega cometeu. Quem, à direita, escreve e comenta nos media fez precisamente o contrário e caucionou como verdades as falsidades ali ditas... depois queixem-se de o povo não ser esclarecido!

Viva o 25 de Abril!

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