Não sabe o que fazer? Diga mal de Trump!

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Há pequenos truques que constam da petite histoire e dos manuais de auto-ajuda, hoje tão divulgados editorialmente; truques básicos, mas que funcionam. Hannah Arendt, a pensadora política das “origens do totalitarismo”, escalpelizou alguns destes malabarismos de feira que, apesar de conhecidos e denunciados, continuam a ser seguidos e a resultar.

Um deles é aquilo a que a autora de A Banalidade do Mal chama reductio ad Hitlerum, ou seja, rebater e combater um adversário político, dando a discussão por encerrada, porque a ideia, o gesto, o bigode ou a palavra do outro lembram Hitler ou já foram usados ou defendidos por Hitler e pelos nazis.

Arendt, uma alemã de raízes judaicas, nasceu em Hanover em 1906 e doutorou-se em Heidelberg aos 22 anos. Mal Hitler subiu ao poder, em 1933, percebendo o que a esperava, saiu da Alemanha; oito anos depois, foi para os Estados Unidos. No seu livro sobre o totalitarismo, inclui o nazismo e o comunismo, mas excluiu expressamente o fascismo mussoliniano… enfim, subtilezas que tendem a escapar aos nossos anti-nazis, anti-fascistas, anti-salazaristas, anti-venturistas, anti-trumpistas, para quem vai tudo dar ao mesmo.

Mas voltando à reductio ad Hitlerum: o método tem a vantagem de ser adaptável a toda a personalidade que, em determinado tempo e lugar, encarne uma determinada linha política, sendo, por isso, susceptível de ser igualada, com maiores ou menores artes de malabarismo, ao Führer, personificação do Mal absoluto.

Não é novidade para ninguém que o Hitler do nosso tempo, eleito com maioria absoluta pelos “fazedores de opinião”, é Donald Trump. Qualquer intelectual, qualquer político, qualquer pequeno e médio imbecil com acesso a uma caixa de comentários, pode, à custa de Trump, erguer-se co- mo um homem de bem, engrandecer-se como um ser ponderado e racional, dedicado às boas causas da Democracia, da Liberdade, do Progresso e da Racionalidade.

É a denúncia de um caso destes que Federico Rampini, editorialista do Corriere della Sera, de Milão, vem desmontar no seu video-blog Oriente-Ocidente. O artista anti-trumpista em causa é Pedro Sánchez, chefe do governo de Madrid, que, a propósito da guerra do Irão, deu o corpo às balas (retóricas) contra Trump, o Hitler ressuscitado.

Num momento pessoal e político particularmente aflitivo - processos de tráfico de influências contra a mulher, o irmão e o número 3 do Partido Socialista, degradação dos serviços públicos, aliança com os separatistas e a extrema-esquerda -, o progressista Sánchez distrai os espanhóis, desaparecendo e ressurgindo vestido de super-anti-trump, pronto a resistir ao arqui-vilão e a salvar o mundo e a democracia. O sucesso foi total e até lhe valeu os louvores do Financial Times, que sempre pugnou pela luta contra o mal.

Ora Rampini desconstrói a táctica de Sanchez, denunciando o vazio e as contradições do socialista espanhol - e o facto de as bases americanas em Espanha continuarem e existir, não sendo de prever a sua desactivação.

Por muitos dilemas em que todos nos vejamos quanto a esta nova guerra do Golfo, nenhum será tão agudo como o da esquerda e o do extremo-centro: entre um regime religioso puritano, que persegue os homossexuais e as mulheres, e Trump, o novo Hitler, símbolo da extrema-direita, da reacção, do fascismo, o que fazer para disfarçar a própria indecisão e falta de reacção e acção consequentes? Falar do novo Hitler, das suas contradições, brutalidades e falta de cérebro, evidentemente. É mais seguro e, por enquanto, ainda tem o sucesso garantido.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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