No Rio nada de novo

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No dia 24 de março, o Tribunal Superior Eleitoral tornou o governador do Rio de Janeiro inelegível por abuso de poder político e económico. Cláudio Castro, do PL, o partido de Jair Bolsonaro, utilizou indevidamente programas públicos e da estrutura do estado na área da Educação para se favorecer na campanha à eleição de 2022.

Como do processo constam ainda o vice-governador, Thiago Pampolha, e o presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar, o primeiro e o segundo na linha de sucessão, o presidente do Tribunal de Justiça, Ricardo Couto, assumiu interinamente o governo. Até 22 de abril, a Assembleia Legislativa marcará eleições indiretas, ou seja, só entre deputados estaduais, para definir quem governará o Rio por seis meses, data das eleições gerais no Brasil onde o sucessor oficial de Castro será finalmente encontrado.

Confuso? Sim. Anormal? Não.

O próprio Cláudio Castro era vice-governador de Wilson Witzel quando assumiu o cargo. Witzel, que concorreu para acabar com a corrupção, foi alvo de impeachment por corrupção, em 2021.

Antes deles, o governador era Luiz Fernando Pezão (não é apelido, é alcunha por calçar 47,5), destituído e declarado inelegível, tal como Castro, por abuso político e económico.

Pezão também começou como vice, substituindo o governador Sérgio Cabral, condenado a mais de 400 anos de prisão em penas acumuladas por corrupção e lavagem de dinheiro no âmbito do escândalo investigado na Operação Lava-Jato. Só em viagens de helicóptero de casa ao Palácio Guanabara, sede do governo, Cabral gastou 20 milhões de reais.

Já o efémero sucessor de Pezão, o governador em exercício Francisco Dornelles, também foi condenado por abuso de poder político e económico, e conduta vedada.

Ato doloso e improbidade administrativa por desvios em programas estatais na Saúde foram, por sua vez, os crimes cometidos por Anthony Garotinho, outro governador do Rio declarado inelegível.

E a governadora Rosinha Garotinho, mulher de Anthony, foi destituída por irregularidades no programa Cheque Cidadão, com a inclusão massiva de beneficiários em período eleitoral para favorecer candidatos aliados.

Para não se perder aqui vai o resumo: antes de Castro cair, caíram Witzel, Dornelles, Pezão, Cabral, Garotinho e Rosinha, isto é, os sete últimos governadores fluminenses.

Por isso, a atual situação política pode ser considerada, sim, confusa. Mas anormal, não.

Anormal foi Castro só cair em função de irregularidades meio burocráticas. Devia ter desaparecido do mapa político logo depois de chamar “sucesso” à operação policial que conduziu em outubro passado nos complexos do Alemão e da Penha, e que resultou na morte de 122 cidadãos brasileiros, entre os quais cinco polícias e 17 pessoas sem antecedentes criminais, além de 13 agentes de segurança e quatro inocentes feridos em estado grave com balas perdidas.

Mas, tirando isso, como canta Gilberto Gil, “o Rio de Janeiro continua lindo”. Aquele abraço.

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