Não basta ter razão

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Há uma tentação muito humana que consiste em acreditar que a demonstração da verdade é, por si só, suficiente para a impor. Que basta mostrar os factos, enumerar as contradições, expor a falsidade das promessas, para que o eleitor esclarecido abandone o populismo como se abandona um mau hábito. Não funciona assim. Nunca funcionou.

O que hoje prolifera na Europa e nos Estados Unidos não é uma mera aberração conjuntural. É uma resposta, embora errada e perigosa, a problemas reais: a precariedade económica que assola os mais jovens, a sensação de que as elites governam para si próprias, a angústia de quem não sabe se conseguirá ter casa, filhos ou sequer uma reforma digna. O fascismo, como o populismo que lhe faz antecâmara, não se alimenta do nada. Alimenta-se do desespero de quem foi deixado para trás e a quem ninguém ofereceu alternativa percebida como tal e convincente.

A resposta a este fenómeno não pode, portanto, limitar-se à denúncia. A denúncia é necessária, mas insuficiente. O problema é que a principal alternativa política disponível, a de centro-esquerda, chegou a este momento histórico em mau estado. Não por falta de ideias no plano teórico, mas por excesso de rotina no plano prático.

Um partido como o PS, para tomar o exemplo português, acumulou décadas de poder intermitente que foram, progressivamente, substituindo a ambição programática pela gestão de clientelas. O jargão cristalizou-se, as caras renovam-se apenas o suficiente para não incomodar quem já lá está, e a lógica de funcionamento interno continua a premiar a lealdade geográfica e a fidelidade de corrente muito acima do mérito ou da capacidade de chegar a quem se afastou.

Isto não é uma crítica de conforto útil. É um diagnóstico de urgência. Porque um partido que funciona com base em pequenas fronteiras internas, onde cada território é feudo e cada militante uma peça de uma rede de favor, não está em condições de oferecer a ninguém uma narrativa de esperança que seja credível. E, sem credibilidade, o espaço deixado vazio será preenchido por quem sabe explorar o ressentimento com muito mais eficácia.

A refundação de que o centro-esquerda precisa não é cosmética. É estrutural. Passa por abrir a porta a pessoas que circulam no mundo, que conhecem realidades distintas das das sedes de concelhia, que trazem experiências de outras latitudes. Passa por substituir a lógica da antiguidade e serviço partidário pela lógica da iniciativa e do conhecimento. E passa, sobretudo, por assumir propostas concretas em vez de posições genéricas, afundadas na sua neutralidade e silêncio. Política não é profissão, é serviço. E muito temporário, porque será logo necessário, por dever, dar lugar aos próximos, e voltar-se às suas profissões e às suas vidas, anteriores ou próximas.

A habitação é o exemplo mais imediato. Programas europeus de construção pública em larga escala, financiados por instrumentos comunitários já disponíveis, com metas vinculativas para os Estados, seriam uma resposta concreta ao problema concreto que mais alimenta agora um ressentimento geracional. Há uma geração, agora, que, pela primeira vez, de forma real e dramática, não consegue começar uma vida, a vida que lhes prometeram.

O mesmo vale para a transição climática: gerida como uma oportunidade de criação de emprego qualificado e bem remunerado, converte-se num argumento de esperança em vez de um fardo percebido. E o que acontece com este exercício de retórica?

Ou a literacia cívica e mediática nas escolas, ensinada como exercício prático de leitura crítica do mundo, que deveria ser outro investimento de longo alcance. Uma comunidade capaz de distinguir informação de propaganda é uma comunidade mais resistente ao autoritarismo.

Mas nada disto tem força se for enunciado por quem não é reconhecido. E a credibilidade reconquista-se pelo exemplo interno antes de se projetar para fora. Um partido que não consegue renovar-se com base em mérito e serviço público temporário dificilmente convencerá alguém de que sabe renovar um país.

Não basta ter razão. É preciso merecer ser ouvido.

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