NATO: respirar fundo e visão de longo prazo

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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Estava em Seattle quando, em novembro de 2024, os americanos elegeram Donald Trump pela segunda vez para a Casa Branca. Ali, na costa do Pacífico, a democrata Kamala Harris era a preferida, mas a maioria dos americanos escolheu o candidato republicano.

Dois dias depois, por ocasião de uma conferência sobre a política externa do novo presidente americano, aproveitei a passagem pelo Estado de Washington de Ryan Crocker, um dos mais experientes diplomatas americanos, para lhe perguntar o que esperar de Trump para os quatro anos seguintes, em especial a relação com os parceiros da NATO. As respostas foram cautelosas — não é por acaso que Crocker foi embaixador em seis países, entre eles Iraque, Afeganistão e Líbano, recebendo a confiança de sucessivos presidentes republicanos e democratas, nomeadamente George Bush pai e George Bush filho, Bill Clinton e Barack Obama.

Assim, em jeito de análise, mas também expressando um desejo, disse-me que “a NATO foi estabelecida como uma pedra basilar fundamental da segurança americana e assim se manteve. O artigo 5.º da Carta da NATO só foi invocado uma vez, e foi no 11 de Setembro. E a NATO esteve connosco no Afeganistão durante todos os 20 anos em que lá estivemos. E o papel da NATO tem sido crucial na contenção da agressão russa na Ucrânia. Portanto, sim, é verdade que a NATO não faz tudo o que os Estados Unidos querem, mas nenhuma aliança alguma vez o faz. Espero sinceramente que a próxima Administração Trump respire fundo e tenha uma visão a longo prazo, tanto para trás como para a frente, de que a NATO garantiu a segurança não só da Europa, mas dos Estados Unidos durante sete décadas”.

"[Trump] foi mesmo ao ponto de dizer que está a reconsiderar a participação na NATO, organização à qual chamou 'tigre de papel'."
"[Trump] foi mesmo ao ponto de dizer que está a reconsiderar a participação na NATO, organização à qual chamou 'tigre de papel'."NATO

Passou quase um ano e meio desde a entrevista, e pouco mais de um ano sobre a tomada de posse de Trump, e as críticas do presidente americano aos membros europeus da NATO continuam constantes. Desta vez, numa entrevista ao jornal britânico The Telegraph, foi mesmo ao ponto de dizer que está a reconsiderar a participação na NATO, organização à qual chamou “tigre de papel”. Entre irritação pelas hesitações europeias em apoiar a guerra no Irão, e pressão para maior colaboração dos aliados, Trump voltou a ir longe nas palavras, mas nos atos presume-se que será mais comedido, até porque não faltarão vozes, na própria Administração, a relembrar que a aliança militar fundada em 1949 ajuda a projetar o poder global americano. E foi essencial para a vitória durante a Guerra Fria.

Não ainda há muito tempo, depois da reação à invasão russa da Ucrânia, e com Joe Biden na Casa Branca, os 75 anos da fundação da NATO serviram para, de um lado e do outro do Atlântico, se realçar que se tratava da “mais bem-sucedida aliança militar da História”. Há, portanto, que preservá-la. Trump tem de interiorizar que ser aliado não significa seguidismo puro e simples, e que já houve outras guerras americanas em que vários parceiros europeus não se envolveram (como a invasão do Iraque em 2003) e foi possível seguir em frente.

Mas também há governantes europeus que em nome da solidez da aliança devem ponderar o nível de divergência pública com os Estados Unidos, até porque muitas vezes é mera retórica, destinada a audiências internas. Contudo, se for mais do que retórica, decisões a quente (aquilo que se critica a Trump) podem deixar um legado de desconfiança que arrisca perdurar nos Estados Unidos, mesmo quando houver outro presidente.

Também devem os europeus pensar que um reforço do pilar europeu da NATO é concretizável, mas uma NATO só europeia (ou com o Canadá) não o é. Só há verdadeira NATO, e o nome diz tudo, se a Organização do Tratado do Atlântico Norte incluir os Estados Unidos.

"Não ainda há muito tempo, depois da reação à invasão russa da Ucrânia, e com Joe Biden na Casa Branca, os 75 anos da fundação da NATO serviram para de um lado e do outro do Atlântico se realçar que se tratava da 'mais bem sucedida aliança militar da História'.”

A velha exigência americana de maior esforço de defesa dos europeus, os célebres 2% do PIB, está finalmente a ser satisfeita. E a pressão conjugada de Trump e do prosseguimento da guerra na Ucrânia até levou, na última Cimeira da NATO, a um compromisso de elevar esse investimento para 5% do PIB até 2035, o que é desafiante para vários países, incluindo Portugal, um dos 12 membros-fundadores e nação para a qual o atlantismo é historicamente vital. Prova-se que quando há vontade de entendimento, ele acontece.

Americanos e europeus (e nunca esquecer os canadianos), parceiros numa NATO agora com 32 membros, depois das recentes adesões da Finlândia e da Suécia, sabem ter construído demasiado património de Defesa e Segurança em comum para o desbaratarem impensadamente.

Será interessante imaginar que depois destas sucessivas tensões, a envolver, também, complexas questões de soberania, como a Gronelândia, a NATO celebrará em 2029 os 80 anos, realçando a sua coesão como aliança perante ameaças previsíveis e outras que não o são.

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