NATO e o investimento na indústria de Defesa 

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Muitos portugueses olham com desconfiança para o aumento do investimento em Defesa.  Num país onde tantas famílias lutam para manter o rendimento e garantir uma vida minimamente digna, a pergunta impõe-se: faz sentido gastar mais em tanques, navios ou drones quando há carências no Serviço Nacional de Saúde ou na escola pública?

A questão não é apenas orçamental, é política: como explicar a importância deste esforço sem trair a ideia de Estado Social, nem alimentar a narrativa de que “há dinheiro para tudo menos para as pessoas”?  A resposta começa na geopolítica, mas acaba no terreno, nas regiões do interior, na economia real.

Portugal é membro fundador da NATO desde 1949, quando a Aliança Atlântica nasceu como resposta às ameaças do pós-guerra e à necessidade de garantir a Defesa coletiva do espaço euro-atlântico. Desde então, o mundo mudou várias vezes: fim da Guerra Fria, terrorismo global, crises energéticas, competição tecnológica e, mais recentemente, uma guerra convencional às portas da Europa.

 A invasão da Ucrânia pela Rússia não é apenas mais um conflito distante: é um aviso direto à Europa sobre o preço da ingenuidade estratégica. Ao mesmo tempo, o posicionamento dos EUA introduz incerteza sobre o grau de compromisso americano com a Defesa europeia — precisamente num momento em que os europeus são chamados a fazer mais pela sua própria segurança.

É aqui que entra o debate sobre a indústria de Defesa. Investir em Defesa já não é só comprar equipamento; é ganhar autonomia tecnológica, reforçar a capacidade de produção europeia e diminuir dependências críticas de atores como a China, em áreas que vão dos semicondutores aos materiais estratégicos.  Instrumentos como o programa SAFE (Strategic Alliance for European Defence) são fundamentais para fomentar inovação, aumentar a capacidade produtiva e distribuir equitativamente os benefícios desta política pelos Estados-membros reforçando a base industrial e tecnológica de Defesa, articulando segurança e competitividade económica.

Para Portugal, isto não tem de ser uma conversa abstrata sobre “geoestratégia”. Pode (e deve) ser uma oportunidade concreta: usar o investimento em Defesa para promover coesão territorial, instalar empresas em territórios de baixa densidade e criar emprego qualificado onde hoje só há opções de saída: emigrar ou resignar-se.

Se o país for capaz de captar projetos industriais na área da Defesa para o interior, não estará apenas a “cumprir metas” com Bruxelas ou com a NATO.  Estará a usar um imperativo estratégico — reforçar a segurança europeia — como alavanca para corrigir assimetrias internas e combater a desertificação de vastas zonas do território.

A perceção dos portugueses sobre o investimento em Defesa mudará no dia em que isso deixar de ser visto como um capítulo obscuro do Orçamento do Estado e passar a ser visível na vida das pessoas: em mais emprego, mais atividade económica local, mais futuro para os filhos que hoje saem do interior sem olhar para trás.  Quando a Defesa começar a significar, ao mesmo tempo, proteção do modo de vida europeu e desenvolvimento de regiões esquecidas, serão os próprios cidadãos a exigir que esse investimento aconteça.

A verdadeira escolha não é entre tanques ou hospitais, entre NATO ou Estado Social.  A verdadeira escolha é entre continuarmos a depender da vontade de terceiros para garantir a nossa segurança ou assumirmos que, num mundo mais perigoso, a responsabilidade de nos defendermos — e de aproveitar essa necessidade para criar riqueza e reduzir desigualdades internas — também é nossa

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