“Muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa”

Margarida Vaqueiro Lopes

Subdiretora do Diário de Notícias e diretora executiva do Dinheiro Vivo

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A frase que dá título a este artigo foi cantada em uníssono por um coro afinado que, no passado dia 17 de outubro, encheu o Campo Pequeno. Rui Veloso apresentou-se ao vivo naquele que será o seu último concerto dos próximos tempos, e o que se viu não foi apenas bonito. Foi uma espécie de renascimento da esperança num mundo que tem estado cada vez mais polarizado, violento, desrespeitoso e perigoso.

Na noite em que Rui Veloso foi abraçado pela voz de milhares de pessoas no Campo Pequeno, outras tantas acampavam na Praça do Rossio, uns quarteirões mais abaixo, em protesto pela ausência de medidas contra a falta de habitação. Porque “muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa”. O mesmo tinha acontecido uns dias antes, no Porto, pelas mesmas razões. Porque “muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa”.

Rui Veloso foi recebido, em Lisboa, por um público surpreendentemente intergeracional. Avós e netos, mulheres e maridos, famílias inteiras juntaram-se para aplaudir uma das vozes mais reconhecidas do panorama nacional, num ano que já nos retirou demasiados artistas – Jorge Palma e Luís Represas foram recordados pelo músico do Porto que, visivelmente emocionado, protagonizou um espetáculo descontraído e intimista durante duas horas. A arte tem, sempre teve, este dom de juntar pessoas. De as fazer recordar que é possível continuar a encontrar a beleza, mesmo quando à volta parece só haver fealdade. De as acordar para a força que tem um refrão cantado em conjunto, que nos une em torno de memórias, de admiração, de encantamento. Não terá sido por acaso que, durante as duas horas em que Rui Veloso – acompanhado por Alexandre Manaia, Eduardo Espinho e João Caetano – não se viu na sala mais do que a luz do espetáculo. Os olhos estavam postos no palco, das bocas saíam as melodias conhecidas, os corpos descansavam e arrepiavam-se e emocionavam-se durante todo esse tempo. Não havia concerto visto através dos ecrãs, havia presença. Algo, também, cada vez mais raro nos tempos que correm. Conseguir fazer isso através da música, da arte, é algo que nos devia fazer pensar. A arte sempre foi revolucionária. Sempre teve um papel fundamental nas mudanças sociais, fosse para as provocar ou para as celebrar. A arte é vocal, é poderosa, faz-nos sentir coisas, faz-nos fazer coisas. Portugal tem perdido, demasiado rápido, artistas que tiveram papéis fundamentais em vários momentos críticos da sua história. Mas enquanto não perdermos a capacidade de nos emocionar quando nos reunimos em torno de um, a esperança mantém-se. Porque é a certeza de que, apesar do que parece na voragem do dia-a-dia, e daquilo que muitos nos querem fazer acreditar, acicatando as nossas diferenças, a verdade é que, realmente, “muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa”.

Cantemos esta frase repetidamente, para nós e com os outros, ouçamo-la alto e bom som nas nossas aparelhagens, colunas portáteis, telefones, gira-discos, e assimilemo-la com coragem. Enquanto Rui Veloso descansa a voz, saibamos usar a nossa com a mesma convicção – na esperança, também, de que volte aos palcos um dia destes.

Porque se há coisa de que precisamos é de momentos que nos recordem que continuamos a conseguir e a gostar de ouvir a mesma canção.

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