Carlos Relvas, Ofélia Marques e José Corrêa d’Oliveira são, mais do que personalidades de uma história cultural, alegorias de uma certa forma de a vida planear e sobrepor-se às decisões e às vontades dessas pessoas que existiram. Nesse sentido serão prosopopeias ou alegorias do fracasso ou do suicídio - tem-se insistido ser esse o fio condutor deste tríptico anguloso, enigmático -, ou tão-só símbolos de algo mais vasto: Portugal e a sua atmosfera asfixiante, mental, porque é num quadro mais vasto de questões sociais e políticas que este livro de Mário Cláudio submete à leitura do leitor participativo a sua avaliação. Não se trata, como o autor de Amadeu tanto gosta e propõe, de conceber um livro à luz da lógica do tríptico, porque há no tríptico esse convite maneirista da leitura. Que Mário Cláudio, autor culto, de vasta curiosidade intelectual, joga com essa chave interpretativa (o romance ou a novela, enfim, a arte narrativa, pode colher na arte, em especial na pintura ou no cinema, muitas das suas actuais conquistas formais), eis o que não oferece dúvidas. E assim quer Carlos Relvas, quer Ofélia Marques, quer ainda José Corrêa d’Oliveira serão ainda outra coisa: quadros mentais portuguesmente definidos.Num país de suicidas, ou de suicidados, serão retratos da existência lusa, isto é, formas de colocar em andamento uma releitura de Portugal que é actual porque neste país se mata e se morre, quantas vezes, da forma mais ínvia. Uma chave de leitura estará numa sequência final de “A Gôndola Negra”, “Os noivados no sepulcro”, onde ressoa Soares de Passos e o título de um poema seu, célebre. Que se diz aí sobre a figura de Carlos Relvas e que a revela em todo o esplendor da sua malignidade, da sua tragédia? Uma frase do narrador implicado, esse jogador implacável da investigação: “Com a morte de Richard Wagner aos 13 de Fevereiro de 1883 (…), Liszt soçobrou no mais escuro dos abismos. (…) Por este tempo, e no seu abandono de projectos existenciais, apenas essa toada [a Gôndola Negra] Carlos, despreocupado de rigores e conduzido em exclusivo pela neurastenia, martela no teclado (…). Em ambos os casos, o de Liszt e o de Carlos de Loureiro Relvas, cada qual com o seu ofício de Caronte implacável, ninguém se furta ao transporte do cadáver, seja o excelso Wagner ou Carlos, o medíocre, a majestade resulta para um e outro da cerimónia fúnebre em que participam (…)” (pp.92-93)..Quer dizer: Mário Cláudio opõe mentalidades e cruzando existências e, melhor, mapeando o curso meteórico (José Relvas) da ascensão de uns e a discensus ad ínferos de outros: o filho de José, Carlos. E por isso o título da primeira novela, ou do primeiro tríptico não pode ser outro: uma composição funérea, o ominoso como estratégia narrativa: toda ela subordinada aos sinais subtis de um destino a traçar-se: entrada na Maçonaria pela mão de José Relvas, conflito entre um especial modo de viver e o código moral de uma sociedade então que se pautava pela ética inatacável; a educação bucólica, certa ingenuidade de Carlos, uma natureza “impermeável ao embuste e ao cálculo”, tudo devém, nesta existência, embate com a figura paterna: numa ida ao Prado, Museu de Madrid, Carlos de Loureiro Relvas assentará: olhando para um quadro de Velásquez, vendo o rosto de Francisco Pacheco, que não seria jamais nesse rosto que o seu iria, algum dia, transformar-se.E o leitor acompanha, nesta arte de contar as vidas como se o escritor fosse o investigador policial - na esteira do melhor Montálban ou do melhor Rúben Fonseca (sem o brutalismo deste, mas com a ambiguidade certeira da perspectiva do narrador, que esconde para revelar com método o processo de um eu) - o fim de um percurso vital desde sempre malsinado, ainda que nada o indicasse. As datas são importantes por isso mesmo, funcionando como pontos luminosos do narrado: 1915-1917, o aparecimento do Orpheu, e essa frase lapidar: “O aparecimento do Orpheu fez deslocar a bússola mental portuguesa, fixada até agora num marasmo que a revolução política não apagou.” (p.100). É a loucura o que, de modo ominoso, está em causa nesta como nas outras duas narrativas: a loucura que se anuncia na Casa dos Patudos.."Na homossexualidade e no erotismo por que se pautam certos episódios da sua trajectória, insisto nesta ideia: Cruzeiros de Inverno é um livro fascinante porque a viagem que neles fazemos é ao inferno de existências portugueses - essas que o país matou.”.Alegoria do país, de um certo país de elites, igualmente à mercê do infortúnio? Aceite-se que a escrita de Mário Cláudio arrasta consigo, como vírus insidioso essa herança camiliana do trágico, do tragicómico por vezes, mas, e sobretudo, do mistério insondável. Pontos luminosos da época: a revista modernista e depois um outro, os Ballets Russes, no São Carlos e a reestruturação de uma personalidade que aí vive a sua epifania final. O pianista falhado é, em bom rigor, símbolo de uma mentalidade: provam-no a correspondência com Francisco Almeida Moreira, outro pai a abater? No fundo, essa primeira novela, ou quadro geográfico-social de uma época em que o país se vive no estertor de vários fins, é reveladora do nosso próprio processo actual: o tiro que contra si desfere é o tiro contra o pai, José Relvas? É um tiro contra uma anquilosada instituição, o casamento?Mas em Cruzeiros de Inverno (Dom Quixote), o que mais me fascina - e ponho na 1.ª pessoa porque é uma leitura que erra no que houver de sobreinterpretação deste livro - é, como confirmo nas duas outras novelas (a que voltarei em texto posterior, para as explorar melhor, pois este livro merece segunda sondagem), a natureza simbólica de que estas três histórias se revestem: a epígrafe de Lucas a abrir a segunda novela, ou quadro, deste tríptico da catástrofe, anuncia o que virá: “Felizes as estéreis, e os ventres que jamais geram, e os seios que nunca amamentam.” Ao contar a história deste Ofélia - premonitório nome, de resto - não sei se é exactamente sobre o suicídio desta artista que esta prodigiosa escrita-investigação se debruça. Na homossexualidade e no erotismo por que se pautam certos episódios da sua trajectória, insisto nesta ideia: Cruzeiros de Inverno é um livro fascinante porque a viagem que neles fazemos é ao inferno de existências portugueses - essas que o país matou. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfic