Mourinho, a seleção e as escolhas do país real

Carlos Ferro

Editor-executivo do Diário de Notícias

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Nos últimos dias uma grande parte do país tem estado ocupado a discutir dois temas: o futuro do treinador José Mourinho e as escolhas do selecionador de Portugal para o Mundial de futebol. Foram horas de televisão ocupadas com teses, informações exclusivas (confirmadas ou não) e prognósticos sobre se o (à hora em que escrevo) técnico do Benfica, clube com o qual tem contrato válido até junho de 2027, ainda o é.

Já quanto ao anúncio dos 27 futebolistas que Roberto Martínez escolheu para representar Portugal na competição que terá lugar entre 11 de junho e 19 de julho nos EUA, Canadá e México, logo após a divulgação da lista começaram as análises técnicas, tácticas e as teorias da conspiração relacionadas com as opções.

São estes assuntos importantes? Claro que sim, dentro do que poderemos considerar razoável e importante para a sociedade em que vivemos.

Gostaria, por exemplo, de ver discutido em algum momento os dados divulgados esta quinta-feira no relatório Portugal, Balanço Social 2025, uma iniciativa da Fundação “la Caixa” e do BPI, em associação com a Nova SBE. O documento, da autoria de Susana Peralta, Bruno P. Carvalho, Francisco Tavares, João Fanha e Miguel Fonseca, tem notícias que se podem considerar positivas como o facto de a taxa de risco de pobreza ter caído para 15,4%, em 2025, mas que, infelizmente, ainda corresponde a 1,66 milhões de pessoas. Assinala também que este risco está a descer desde 2023. Também se registou um aumento do rendimento médio disponível, que passou de 9856 euros em 2014 para 14.951 euros em 2024. Ou seja um aumento do poder de compra médio de 25,2%.

Do lado negativo estão questões como a dificuldade dos agregados familiares mais pobres em pagar a habitação – 3,4% suportavam em 2024 custos com habitação superiores a 40% do rendimento e quase 40,4% residiam em casas com danos estruturais significativos. Junte-se a esta constatação o facto de em 2024 existirem 301 mil crianças e 541 mil pessoas com mais de 65 anos a viver em situação de pobreza. E, ainda, a importância que têm as transferências sociais: sem estas (excluindo pensões) a taxa de pobreza teria aumentado de 16,6% para 40,3%.

São dados que voltam a lembrar as dificuldades que as famílias enfrentam em Portugal. E que merecem mais preocupação que o futuro emprego de José Mourinho e a equipa para o Mundial de futebol.

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