Com o final de agosto e o regresso à “normalidade”, volta também o espetáculo da vida política nacional. Desta feita, perante o silêncio ensurdecedor das oposições tradicionais (ou a escassez de tempo de antena) e o trabalho de bastidores da maioria que governa (ou pelo menos para aí remetido), o tema quente desta rentrée é uma moção de censura, cujo desfecho é conhecido antes de ser oficializado: o chumbo.
O líder do Chega sabe-o perfeitamente. Contudo, na política do espetáculo, o imperativo categórico é aparecer. Sob a máxima do "falem bem ou falem mal, mas falem", esta ação alcança o seu mérito prático para o proponente. Embora estejamos perante uma clara instrumentalização dos mecanismos parlamentares para dominar a agenda mediática, a verdade é que o jogo de luzes, sombras e fumos resultou – desde a resposta “musculada” do ministro da Administração Interna (MAI) à entrada em cena do Presidente da República.
André Ventura volta a raptar a agenda pública. O descontrolo perante os microfones em busca de um soundbite fácil expôs antecipadamente as posições de quem poderia viabilizar a iniciativa. O resultado prático é perverso: discute-se obsessivamente o Chega, camuflando quer os feitos tangíveis do Governo, quer a gritante ausência de uma alternativa programática ou do palco para a expor, por parte da oposição clássica, que parece remetida a um papel de espectadora passiva. Nesta coreografia, parte da comunicação social assume uma cumplicidade involuntária, alimentando o ruído em troca de audiências fáceis.
Há uma profunda ironia nisto. A atualidade deixa-se paralisar por uma "crise artificial". Um caso grave que não devemos esquecer – o esquecimento de um ministro com escola na PJ que mantém uma serenidade aparente sob pressão – transformou-se no grande folhetim nacional, servindo apenas de palco ao proponente.
Ainda assim, o tiro mediático traz um revés estratégico. Ao esticar demasiado a corda, o Chega consegue o feito inverso: unir todos os quadrantes na defesa da estabilidade e colocar a maioria dos partidos em sintonia com Belém. No fim de contas, a defesa presidencial da estabilidade e da eficácia governativa aliada ao regular funcionamento das instituições sobrepõe-se ao ruído de fim de verão. Há uma inevitável sensação de déjà vu político. Esta postura firme dita mais uma vitória de António José Seguro sobre André Ventura, reeditando a nível institucional o duelo que os portugueses já tinham arbitrado nas urnas no início do ano.
Resta ver quem, no espectro partidário, tentará capitalizar os louros desta vitória institucional.
Fica a lição para o futuro: que os partidos se organizem a tempo para uma rentrée com substância e resultados concretos, e que os eleitores consigam ver além da poeira levantada por quem pretende manipular o espetáculo. Afinal, ainda estamos no verão, e até ao outono do Orçamento do Estado ainda faltam algumas semanas.