A 5 de outubro de 1910, José Relvas proclamou a República da varanda dos Paços do Concelho de Lisboa. O regime começou assim por uma palavra dada em voz alta a quem enchia a praça: quem detém o poder passa a responder perante quem lho confia. Hoje, nessa varanda, Carlos Moedas celebra os valores republicanos. Ética republicana é uma expressão gasta, mas o núcleo é simples: quem exerce um cargo público deve a verdade a quem lho confiou. Pode errar, pode falhar, pode até não saber. Mas afirmar uma coisa quando convém e o contrário quando deixa de convir, isso é que não pode. Menos a Carlos Moedas. A ele, até ao momento tudo se permite. A 3 de outubro de 2025, um mês depois da tragédia do Elevador da Glória, com os seus 16 mortos, e a nove dias das eleições, Moedas garantiu: “Eu contactei todas as famílias das pessoas que, infelizmente, já cá não estão”. Falara com elas “desde o primeiro dia”. Detalhou: “falei com a família da Coreia, com a família do Canadá, com as famílias em França”. Foi reeleito. Derramou lágrimas no programa de Júlia Pinheiro. Um ano depois, as famílias escreveram uma carta aberta. Dizem-se esquecidas: para muitas, o único contacto direto da Câmara em doze meses foi o convite para a inauguração do memorial. Pediam “comunicação, transparência, apoio, responsabilização”. E Moedas mudou de versão: “Eu, como presidente da Câmara, não posso ser diretamente o contacto das pessoas. É uma questão de lei. E, portanto, quem tem os contactos são as seguradoras, são as embaixadas”.
As duas frases não cabem na mesma verdade. Se a lei o impedia este ano, já o impedia quando garantiu o contrário em campanha. Se falou de facto com todas, a carta nunca teria sido escrita. Que lei é essa, nunca disse. Confrontado, declarou-se ofendido com a “politização”. A ofensa deixou de ser faltar à palavra a quem está de luto e passou a ser lembrá-lo. Carlos, a vítima impune! Indigna a contradição, e indigna mais a facilidade com que passa. A Carlos Moedas tudo se permite. Permitiu-se-lhe ver aprovado um fundo de apoio às vítimas que, semanas depois, continuava por constituir. Permitiu-se-lhe adiar para depois das eleições a reunião sobre o acidente. Permite-se-lhe agora desdizer-se sem prestar contas. Outro autarca não sobreviveria a uma semana destas; em Lisboa dura uma tarde de noticiário. Parte da responsabilidade cabe a quem, tendo microfone e arquivo, regista a versão de hoje sem a pôr ao lado da de ontem. A falta de escrutínio a Moedas é um mistério crescente. As instituições vivem de crédito, e o crédito é a palavra de quem as representa. Para uma família na Coreia, no Canadá ou em França, a Câmara de Lisboa é o rosto do país onde perdeu alguém.
Transparência é, antes de mais, não ter duas versões do mesmo facto. Moedas tem hoje boa ocasião para honrar a República: Dizer a verdade! E pedir desculpa!