“Moderaditos”

Diogo Noivo

Politólogo

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É normal que olhemos para a estupidez como um produto da inércia. Que o desinteresse se une à preguiça para gerar pobreza de raciocínio é algo fácil de intuir. É um consenso pacífico.

Mas por muito sedutora que seja a associação entre estupidez e vacuidade, a verdade é que a estupidez tem muito que se lhe diga. Numa divertidíssima defesa da estupidez publicada em 1991, Vítor J. Rodrigues defende que a exuberância dos “fenómenos estupidológicos”, a sua extrema-variedade, a riqueza das suas realizações e a elegância dos seus refinamentos justificam que sejam definidos pela positiva.

Numa época em que quem não quer conhecimento está obrigado a fugir dele, a estupidez é um privilégio ganho com o duro esforço da luta constante contra a informação e a vitalidade mental. Rodrigues propõe uma definição canónica: estupidez é resistência activa à inteligência.

Lembrei-me desta abordagem contraintuitiva à estupidez a propósito de outro livro, um magnífico ensaio acabado de publicar pela Zigurate, cujo o argumento também destrói convenções e intuições: Moderaditos, de Diego Garrocho.

Nestas páginas, a moderação não é equilíbrio, nem compromisso, nem capacidade de diálogo. Não é cordialidade, embora seja importante. E não é, certamente, um ponto médio entre duas ou mais posições em confronto. É coragem.

A este propósito, Garrocho tem o enorme mérito de resgatar obviedades silenciadas pelo ruído político e mediático. Por exemplo, que a valentia nunca se mediu em decibéis. Até porque as bravatas são, por definição, simulações de virtude. Sempre houve maior bravura no cepticismo sadio, que resiste a feiticeiros com soluções simples, rápidas e absolutas para problemas complexos, do que na desqualificação liminar e sonora de um adversário.

A moderação é coragem porque, no essencial, os radicalismos nascem da acumulação de medos. Medo ao que vem de fora, sejam pessoas ou capital. Medo a um presente estagnado e a um futuro incerto. Medo às diferentes formas de solidão contemporânea que nos levam a procurar protecção em identidades-refúgio. A ira como resultado de estar cansado de ter medo.

A oposição aos radicalismos exige, então, uma coragem teórica, sem a qual não é possível vencer os medos com argumentos. Mas exige também uma coragem prática. Quando a paisagem política e social se encontra resumida de forma binária, em campos monolíticos e absolutos, a rejeição da trincheira dá azo a acusações de cobardia e traição.

O que nos leva a outra obviedade recuperada por Garrocho: “(...) É infinitamente mais fácil viver apetrechado de certezas do que enfrentar uma realidade desprovida de apoios.” Portanto, ser moderado implica desiludir - e aborrecer, acrescento - os outros. E para isto é preciso coragem.

Talvez o mais louvável no argumento seja a maneira como rejeita as conversas do costume. Sim, as redes sociais são parte do problema, mas a tecnofobia é uma posição preguiçosa, desde logo porque a tecnologia não é mais do que um acelerador de tendências.

E sim, a comunicação social é imprescindível a um debate sério e democrático, mas não está isenta de responsabilidades: a ditadura de audiências cada vez mais fanatizadas abriu a porta à radicalização e à simplificação de conteúdos. Nas TV e nos jornais, a polémica vale pela agitação que produz. Não é preciso atravessar oceanos para encontrar conteúdos televisivos ditos de informação em que a discussão é desenhada para provocar interações nas redes sociais.

Em Moderaditos, Diego Garrocho bate-se por uma tese clara, mas difícil. Mais do que criticar posições radicais, convida os moderados a pensar no que andam a fazer. Em apenas 80 páginas, confirma que, aos 42 anos, é um dos mais interessantes intelectuais espanhóis da actualidade, capaz de expor um profundo conhecimento da tradição filosófica ocidental num texto acessível e apelativo para a imensa maioria dos leitores. Em suma, uma resistência activa à estupidez.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

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