Marrocos no feminino

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

Publicado a: 

Fatima Ezzahra El-Mansouri faz história ao ser a primeira mulher a chefiar um governo em Marrocos. Será também a terceira primeira-ministra no mundo árabe, depois das tunisinas Najla Bouden, que esteve no poder entre 2021 e 2023, e Sarra Zaafarani, em funções desde 2025. O rei Mohammed VI, que tinha outras opções dentro do Partido Autenticidade e Modernidade (PAM), vencedor das legislativas de 23 de setembro, deixa assim mais uma marca no seu reinado, iniciado em 1999. Confirma-se que a ambição de modernizar o país passa claramente pela promoção da condição feminina, um processo que não é novo, basta pensar que a própria FZM (como a chama a imprensa marroquina) era já ministra da Gestão do Território e do Urbanismo e sobretudo autarca de Marraquexe, uma das grandes cidades do reino.

No mundo islâmico, desde a paquistanesa Benazir Bhutto à turca Tansu Ciller, passando por Megawati Sukarnoputri na Indonésia ou Khalida Zia e Hasina Wajed no Bangladesh, mulheres chefe de governo ou de Estado já não são novidade, mesmo que na maioria dos casos fossem herdeiras de dinastias políticas. Não é essa condição, aliás, um exclusivo dos países muçulmanos, pois a primeira primeira-ministra no mundo, a singalesa Sirimavo Bandaranaike, e a primeira presidente, a argentina Estela Péron, eram viúvas que sucederam ao marido.

Mas é relevante que entre os países árabes, sejam dois do Magrebe os pioneiros, e, como acontece agora no caso da primeira-ministra marroquina, mulheres com formação académica, que construíram uma carreira e que se destacam-se ao serviço da causa pública.

Após umas eleições que confirmaram os partidos da coligação governamental cessante como os vencedores, mas com o PAM a ser desta vez mais votado do que a Reunião Nacional de Independentes (RNI), do até agora primeiro-ministro Aziz Akhannouch, FZM tem de procurar aliados. O Istiqlal, um partido histórico ligado à independência marroquina, também estava no governo. Na oposição sobressaem os islamitas do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (PJD), que já estiveram no governo mas com fraco desempenho e que há uma semana, no quadro de uma eleição com abstenção em alta, recuperaram alguma força.

Independentemente da composição final da nova coligação governamental - e o rei terá sempre uma palavra na solução encontrada - o desafio é grande para FZM, pois o desemprego continua alto e o custo de vida também sobe, dada a conjuntura complicada a nível internacional. A nova chefe do governo mostrou-se competente a reagir à destruição causada pelo sismo que em 2023 afetou a região de Marraquexe e também deu sinais de compreender as ambições de uma sociedade que é bastante jovem e tradicionalmente reivindicativa.

Liderando um partido que nasceu da iniciativa de Fouad Ali El Himma, um conselheiro do rei, FZM terá igualmente como desafio preparar Marrocos para uma grande aposta de Mohammed VI, o campeonato mundial de futebol de 2030, organizado pelo país africano juntamente com Espanha e Portugal. O presidente da Federação Marroquina de Futebol, Fouzi Lekjaa, que se tornou militante do PAM, até chegou a ser falado também para primeiro-ministro.

FZM, ao lidar com a vizinha Europa, vai encontrar algumas mulheres na chefia do governo, nomeadamente a italiana Georgia Meloni e a dinamarquesa Mette Frederiksen, mas não tantas assim. O que significa que Marrocos ter uma primeira-ministra é notícia, e é igualmente notícia que o mundo ganhe mais uma mulher chefe de governo. Não é a raridade que era quando em 1979 a britânica Margaret Thatcher se tornou primeira-ministra, a primeira na Europa, mas continua muito caminho a ter de ser feito a nível global.

Diário de Notícias
www.dn.pt