Se há uma palavra, para lá de um (inesgotável) talento, que possa definir Maria Capelo (Portugal, 1970) é consistência. E se hoje a artista se tornou um dos nomes incontornáveis da sua geração, trazendo a atualidade de uma fidelidade à pintura e ao desenho, deve-o, apenas e só, a essa mesma consistência e essa capacidade de espera por um tempo de reconhecimento que parece ter chegado. A obra de Maria Capelo distingue-se não apenas pela representação de um lugar concreto, mas também pela forma como transforma a experiência desse lugar em imagem, através da observação, da memória, da repetição e da imaginação.
Maria Capelo licenciou-se em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, em 1992, e vive e trabalha em Lisboa, expondo regularmente desde 1996.
Sem alarido por parte da crítica, do mercado ou mesmo dos media, a artista realizou exposições individuais em algumas das mais relevantes estruturas de criação e programação artística nacionais e a sua obra integra coleções como as do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, Coleção de Arte Contemporânea do Estado, Fundação EDP, Fundação Carmona e Costa, FLAD ou a Coleção Norlinda e José Lima.
Em 2022 foi a grande vencedora do Prémio FLAD de Desenho, num ano em que tive o privilégio de presidir ao júri na primeira fase do concurso. A sua vitória era evidente e foi unânime, destacando-a a forma inovadora e inesperada como a sua obra revisita a paisagem e, sobretudo, ativa a memória.
Pedro Paiva (Portugal, 1977) é, por sua vez, uma espécie de epíteto do artista abnegado e simples, que procura as essências da matéria e das palavras para a construção de um universo filosófico e físico em que o absurdo, o improvável e o humor se cruzam de forma brilhante e inusitada.
Pedro Paiva frequentou a Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e a Universität der Künste, em Berlim. Em 2001 iniciou a colaboração com João Maria Gusmão, que se prolongou até 2021 e que levou ambos a traçarem uma trajetória de afirmação nacional e internacional que há muito não se verificava na arte contemporânea portuguesa.
Em 2009 representaram Portugal na 53.ª Bienal de Veneza, num projeto com curadoria de Natxo Checa, que, curiosamente, foi o tema do primeiro artigo de opinião que publiquei em órgãos de comunicação social.
O fim da colaboração da dupla, parece ter devolvido Pedro Paiva ao processo de criação artística, em sentido mais literal, devolvendo-o ao atelier-cave. O artista não abandona o absurdo, a Patafísica, o cinema ou os mecanismos de associação inesperada. Mas parece deslocar o centro da obra, e a ciência e a metafísica cedem algum espaço à literatura, ao teatro, à história e à condição humana. Agora a escultura é vista como parte de um teatro humano e a cerâmica, a verdadeira nova tecnologia da arte contemporânea do século XXI, devolve-o ao prazer da manualidade.
Na coincidência de conhecer bem o trabalho dos dois artistas, visitei com curiosidade a exposição, patente na Galeria Nuno Centeno, no Porto, em que a obra de ambos entra em diálogo. Em forno diurno, embora nocturno podia correr-se o risco de cada um abdicar de si para a obra do outro, mas o que se verifica é um revolucionário gesto de partilha que faz desta exposição uma imersão na condição humana. O espaço, por vezes grotesco da galeria, configura-se como perfeito e, sem nunca deixarmos de conseguir ver cada um, mergulhamos num tempo surreal e, simultaneamente, no que de mais intenso a nossa memória pode revelar.
Patente até 14 de novembro de 2026, é uma exposição a não perder que abre caminho a outras formas de expor e à possibilidade de um mundo com menos ego e mais escuta.