Mar português

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

Publicado a

Depois de ter estado em Nova Iorque no 4 de Julho, para a celebração dos 250 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos, o navio-escola Sagres continua a sua ação itinerante de embaixador de Portugal. E as últimas imagens que vi foram em New Bedford, antiga terra de baleeiros, ligada até a Herman Melville, e hoje uma cidade com forte comunidade luso-americana.

Só a beleza do veleiro de três mastros chegava para explicar o encantamento que o navio motiva, junto de portugueses e lusodescendentes, mas também dos americanos em geral, e não só. Mas há muito mais em causa, e isso tem que ver obviamente com a história marítima de Portugal, com as grandes viagens dos Descobrimentos, nos séculos XV e XVI.

A relação entre Portugal e os oceanos é muito mais do que uma memória do passado. A extensa faixa litoral no extremo ocidental da Europa e os arquipélagos da Madeira e dos Açores no meio do Atlântico oferecem ao pequeno Portugal pós-imperial uma vasta Zona Económica Exclusiva, que é um trunfo para o desenvolvimento. Mas um trunfo que, para ser efetivo do ponto de vista económico, tem de ser protegido e isso passa por Forças Armadas modernas e reforçadas, nomeadamente ao nível da Marinha.

"(...) Por isso, a importância do 'portadrones' em construção num estaleiro romeno e o agora anúncio/confirmação da compra de três fragatas a Itália durante a visita do primeiro-ministro Luís Montenegro a Roma, onde se encontrou com Giorgia Meloni."
"(...) Por isso, a importância do 'portadrones' em construção num estaleiro romeno e o agora anúncio/confirmação da compra de três fragatas a Itália durante a visita do primeiro-ministro Luís Montenegro a Roma, onde se encontrou com Giorgia Meloni." FOTO: Giuseppe Lami

Se os dois submarinos são decisivos na questão da soberania marítima, o reforço a nível de navios de superfície é igualmente vital, e, por isso, a importância do portadrones em construção num estaleiro romeno e o agora anúncio/confirmação da compra de três fragatas a Itália durante a visita do primeiro-ministro Luís Montenegro a Roma, onde se encontrou com Giorgia Meloni.

A invasão russa da Ucrânia e a exigência americana de maior investimento europeu na Defesa aos parceiros da NATO conjugaram-se para que a Europa faça um esforço na Defesa sem comparação com o que aconteceu nas décadas que se seguiram ao fim da Guerra Fria. Para Portugal, que tanto tardou em cumprir os 2% do PIB em Orçamento de Defesa, uma obrigação passou a ser uma oportunidade.

Há muito que as chefias militares alertavam para as carências nos três ramos, tendo dificuldade em ser escutadas por um poder político que sabe que dois séculos sem invasores no território nacional e a pertença à NATO criaram na população uma sensação exagerada de segurança e, portanto, pouca disponibilidade para eventuais cortes em áreas sociais em nome da Defesa. Com Portugal a assumir na Cimeira da NATO, em 2025, em Haia, o compromisso dos 5% do PIB até 2035 (3,5 mais 1,5 de uso duplo), confirmado na Cimeira de Ancara, finalmente é possível imaginar a médio-prazo a modernização das Forças Armadas.

A compra vai ser aos italianos da Fincantieri, ao abrigo do programa europeu SAFE. Foram a opção do Governo Português, ganhando aos franceses do Naval Group.

No ano passado tive oportunidade de visitar, durante a sua passagem por Lisboa, o Trieste, o navio de maior tonelagem da Marinha Italiana, descrito como um porta-helicópteros ou navio anfíbio, mas que pode ser adaptado para utilização por F-35, tal como acontece já com o Cavour, considerado o único porta-aviões italiano. Também navios franceses de visita a Lisboa foram alvo de reportagem no DN, com destaque para o submarino de propulsão nuclear Tourville.

"A extensa faixa litoral no extremo ocidental da Europa e os arquipélagos da Madeira e dos Açores no meio do Atlântico oferecem ao pequeno Portugal pós-imperial uma vasta Zona Económica Exclusiva, que é um trunfo para o desenvolvimento. Mas um trunfo que, (...), tem de ser protegido e isso passa por Forças Armadas modernas e reforçadas, nomeadamente ao nível da Marinha."

A aposta nas fragatas italianas em detrimento da proposta do Naval Group é uma decisão política e pode ser discutida (a começar pela questão do preço), como será discutida a próxima escolha dos sucessores dos F-16, seja qual for, mesmo que se saiba que os militares preferem os F-35, considerando terem os aviões americanos claras vantagens sobre as alternativas europeias. Mas não é discutível a necessidade de reforço.

Aquisição das fragatas à parte, até porque as tecnologias do século XXI não têm comparação com o passado, é impossível não sublinhar a tradição marítima dos italianos, desde as repúblicas de Amalfi, Pisa, Génova e Veneza, até hoje. E não esquecer que um século antes dos Descobrimentos, um rei visionário, D. Dinis, foi buscar o genovês Manuel Pessanha para fundar a Marinha. Em 1317, um italiano tornou-se, assim, o primeiro almirante de Portugal. Depois, muitos italianos serviram a Coroa Portuguesa, até esse Américo Vespúcio que acabaria por dar nome ao continente onde por estes dias o navio Sagres navega.

Diário de Notícias
www.dn.pt