Basta ver notícias – em qualquer lado, nos meios tradicionais ou nas redes sociais – para perceber que o Ocidente está todo a ler pelo mesmo guião. Dos bloqueios às escolas que deram em motins em França, com caixotes do lixo e pessoas incendiados e contágio imediato à Bélgica, ao "No Meloni Day" em Itália, passando pelos acampamentos e manifestações de massas em oposição ao “custo de vida e habitação” em Espanha e Portugal, passando pelos desacatos na Albânia, terminando na fervorosa agitação em vésperas das eleições intercalares norte-americanas, a rua ocidental entrou numa ebulição sincronizada ao milímetro.
Não é preciso recorrer a teorias da conspiração para explicar esta coreografia. Trata-se de uma convergência ideológica e operacional bem à vista. Sob o chapéu da chamada "agenda verde" de matriz neomarxista – a velha "melancia" política, verde por fora, vermelha por dentro –, assistimos à fusão de todas as causas numa única "omnicausa" anticapitalista e anti-ocidental (cujo melhor rosto será Greta Thunberg, personagem que, aparentemente, tem por causa… todas as causas). Seja a emergência climática, o preço das casas em Lisboa e Madrid, a escola pública em Paris ou a geopolítica no Médio Oriente, o diagnóstico gritado nos megafones é rigorosamente o mesmo: a culpa de todos os males é do “mercado livre” e do "capitalismo extrativista". A solução mágica, dizem, passa sempre por mais dirigismo estatal, fixação coerciva de preços, expropriações e decrescimento económico.
Como é que chegámos a este ponto de degradação? É que a extrema-esquerda, perdão, a esquerda – na realidade já não há diferenças aqui – está apenas a fazer o seu trabalho histórico de agitação e sabotagem, aproveitando um vazio de poder e de ideias.
O verdadeiro culpado por este pântano é o "bloco central" europeu e norte-americano.
Depois de ter beneficiado dos frutos extraordinários da revolução liberal de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, que esmagou a estagflação dos anos 70, gerou décadas de prosperidade inédita e derrotou a União Soviética sem disparar um tiro, o centro político acobardou-se, rendeu-se ao estatismo burocrático e vendeu a alma dos valores e das ideias a quem, por princípio, combate qualquer chão comum de diálogo. O preço? O poder imediato e uma paz podre que só poderia acabar mal (como se vê).
A União Europeia e o Canadá, em particular, suicidaram-se economicamente: mergulharam numa hiper-regulação asfixiante, em impostos punitivos e num fanatismo climático que destruiu a sua própria soberania energética e industrial. Apesar de tudo, os Estados Unidos continuaram a crescer, assentes no seu setor privado, enquanto a Europa se transformou num museu hiper-regulamentado, atirando a sua classe média para uma estagnação económica terrível.
Incapaz de gerar riqueza porque asfixiou quem trabalha e investe, este centro tecnocrático falhou na promessa básica da democracia ocidental: garantir o dia a dia em prosperidade e assegurar que os filhos vivem melhor do que os pais. Pior! Enquanto geria a escassez através de subsídios e dívida, o centro entregou, durante décadas, o monopólio do sistema de ensino, das universidades e da cultura a uma hegemonia neomarxista, pós-colonial e globalista.
O resultado desta engenharia social está agora a cobrar a fatura nas ruas. Formaram-se gerações inteiras de jovens doutrinados para odiar a História Ocidental e a economia de mercado. Quando estes jovens saem das universidades – vítimas de uma "superprodução de elites" com expectativas inflacionadas – e chocam de frente com a dura realidade de terem cursos que não servem absolutamente para nada, salários miseráveis e casas inacessíveis, sem que ninguém lhes diga a verdade, não percebem que são vítimas do excesso de Estado na sociedade, do garrote fiscal e da burocracia que impede a construção e o crescimento. Mas, claro, como foram formatados na escola pelo anticapitalismo, saem para a rua a exigir ainda mais Estado para curar uma doença causada pelo próprio Estado.
Quem agradece? Essas mesmas elites que acham que assim estão a servir o devir histórico, a inevitabilidade do “progresso social” para um destino que, de acordo com os seus livros favoritos, é o destino final da Humanidade. Caminho esse que já matou pelo menos 100 milhões de pessoas (intencionalmente) na História e que só trouxe fome e miséria onde quer que tenha tocado.
Não fosse tudo isto já uma tragédia iminente, cai ainda num enorme paradoxo: esta vanguarda ruidosa de estudantes, ativistas climáticos e radicais de sofá corre o sério risco de desempenhar o papel clássico dos "idiotas úteis". Veja-se o que aconteceu no Irão em 1979, quando os estudantes marxistas e “progressistas” se aliaram aos radicais islâmicos para derrubar o Xá, convencidos de que liderariam o futuro – apenas para serem implacavelmente dizimados e purgados assim que os teocratas tomaram o poder.
Hoje, na Europa e na América do Norte, o filme ameaça repetir-se, ainda que noutros moldes. Ao incendiarem as ruas, ao bloquearem quem precisa de trabalhar e ao destruírem a autoridade das instituições democráticas moderadas, os esquerdistas não estão a abrir caminho para o seu paraíso ecossocialista. Estão, isso sim, a empurrar a maioria silenciosa – os cidadãos que trabalham, pagam impostos brutais e exigem ordem pública – para os braços de forças populistas e autoritárias que, uma vez chegadas ao poder pelo voto de protesto, não terão qualquer contemplação com quem hoje monta as barricadas.
Enquanto a Europa e o Canadá se deixam esmagar nesta tenaz entre a rua radicalizada e o recuo populista, Moscovo e Pequim assistem na primeira fila e aplaudem.
A Rússia joga no caos imediato: através de operações de guerra híbrida e manipulação algorítmica, alimenta alegremente ambos os extremos políticos para manter os governos europeus reféns de crises internas.
Já a China "goza o prato" com um cinismo estratégico monumental.
Em Pequim, olha-se para esta autoflagelação progressista ocidental com o desprezo reservado aos Baizuo – a "esquerda branca" ingénua que destrói a sua própria competitividade em nome de dogmas ideológicos.
A juventude ocidental usa o TikTok – convenientemente desenhado pela chinesa ByteDance para premiar o conflito no Ocidente, enquanto que na China o seu gémeo Douyin promove a ciência e o patriotismo – para exigir o "decrescimento económico”. Na China, abre-se dezenas de centrais a carvão para produzir, em regime de quase-monopólio, as baterias, os painéis solares, as terras raras e os carros elétricos que Bruxelas nos obriga a comprar.
A Europa legisla a sua própria desindustrialização verde; a China fatura os milhões.
E do lado dos Estados Unidos? É verdade que o génio inovador privado americano e o seu mercado de capitais continuam a ser o único motor económico digno desse nome no mundo (ainda) livre – capaz de proezas tecnológicas que parecem pura ficção científica, como a recente demonstração do novo protótipo do Tesla Roadster que, equipado com propulsores da SpaceX, é capaz de levantar voo. Mas apesar da vitalidade de Silicon Valley e do Texas, a política em Washington também adoeceu gravemente.
A "ameaça vermelha" interna no Partido Democrata aumentou de tal forma que já não é uma franja folclórica: sem vozes moderadas competentes para lhes fazer frente, os radicais dominam hoje a agenda cultural e regulatória.
Já do lado do Partido Republicano, os liberais clássicos e conservadores fiscais foram encostados às cordas por uma nova direita nacionalista, estatista e protecionista que tem em Donald Trump o seu expoente máximo. Em Washington, o consenso de Reagan morreu: já ninguém discute se o Estado deve ou não controlar a economia – discute-se apenas se esse controlo deve ser feito através dos subsídios verdes e controlos de preços da esquerda, ou das tarifas alfandegárias e do dirigismo industrial da direita.
É aqui que reside o atual beco sem saída. A História económica demonstra, sem uma única exceção, que tudo o que é controlo estatal da economia resulta mal. Muito mal. Quando o Estado substitui o mercado livre e o sistema de preços pela vontade dos políticos e dos burocratas – seja em nome da "justiça climática" ou do "nacionalismo económico estratégico" – , o resultado foi sempre a escassez, a inflação, a estagnação e o repugnante capitalismo de compadrio (crony capitalism).
Estamos, em suma, presos numa loucura coletiva que tenta curar uma sobredose de Estado com ainda mais Estado, de uma forma ou de outra.
Com dívidas públicas colossais e economias amarradas, vivemos um tempo de Franklin D. Roosevelt e de Charles de Gaulle – de New Deals verdes, de planeamento central, de tarifas protecionistas e de Estados obesos que absorvem metade da riqueza produzida.
Isto num momento em que precisávamos, como de oxigénio para respirar, da coragem moral, do choque de desregulamentação, do corte de impostos e da liberdade económica de Ronald Reagan e Margaret Thatcher.
Sem esse grito de revolta pela liberdade individual e pelo mercado livre, nenhum dos cenários que hoje se desenham nas barricadas das ruas ou nos boletins de voto terá um final feliz. Pelo contrário. Só haverá mais fome, mais escassez e mais morte, exceto para alguns escolhidos, claro. Resta saber quais…