Perante a actualidade da crítica de poesia em Portugal - inexistente, inquinada, feita de amiguismos, sectária, e, como na política indigente em que vivemos, enviesada, cobarde, desatenta ao que se passa fora do círculo dos eleitos, dos escolhidos, dos de-bem-com-deus-e-o-diabo - falar-se de surrealismo e de espíritos irreverentes como Mário de Cesariny, Natália Correia, António José Forte, Mário Henrique-Leiria e, do mesmo passo, lembrar que a História (a da Literatura também) se faz mais de relativismos que de absolutos, isso implica ter noção das omissões e das injustiças, dos esquecimentos estratégicos e das estratégicas maquinações contra outros espíritos irreverentes. Breton o disse: a História é totalitária e o surrealismo age contra a História, trilhando o que é próprio dela: o escrever-se ela, não raro, nessas páginas que ninguém ou poucos irão ler.O surrealismo de 1924, se depois caiu, pela mão de Breton, em papismos vários, aproximando-se de totalitarismos que antes tinha recusado, a verdade é que permaneceu como um movimento vivo e que vem até ao presente, até esses poetas da Escola Surrealista de Chicago, até autores que pagam cara a sua irreverência, a sua lúcida forma de estar na poesia como na vida: fora dos circuitos que ditam as influências, fora das constelações grupescas (e grotescas) dos festivais onde se vende banha da cobra e onde, cintilantes, os poetas que disseram “Sim” a pôr um poema em rolhas de vinho, mutuamente se elogiam e mutuamente se pagam em versos e em poses de esquerdismo - mas não recusaram a natalícia garrafa de vinho e os 250 patacos com que engoliram mais um pouco da independência, da dignidade e do bom senso e do bom gosto.Luís Filipe Sarmento, que anda há 50 anos nisto de publicar poemas, recusa tudo isto. E faz bem. O seu original surrealismo - que o é - vem do discipulato de Natália Correia, dialoga com Ferlinghetti e tem em alguns momentos qualquer coisa que recua no tempo e traz a própria poesia a um estado de inocência original. É como se, sem medo, o poeta viesse ainda dizer, na Ágora abandonada ao cinismo, à estupidez e à cobardia, que as palavras estão vivas e podem ser uma ponte para a verdade.O livro de que falo hoje é de 2020 e Luís Filipe Sarmento (1956), traduzido em chancelas estrangeiras de grande valia (a City Lights, para que conste, ou a Gallimard - que vem aí) oferece-nos em Ao Rubro (2020) a reunião da sua poesia. Num livro de 2017, Gabinete de Curiosidades, o compromisso para com o legado surrealista fá-lo LFS pelo lado mais combativo (sim, esta poesia não é nédia, inodora e incolor, não se faz de marginal para ter estrelinhas e não vende gato por lebre - é o que é), cultivando o poema em prosa, assim: “O capitalismo financeiro não vê para além do minuto. Falseia prognósticos, adultera perspectivas. Lucra contra tudo e contra todos. Não tem Estado, controla-os. Estimula concentrações de riqueza, produto do roubo institucionalizado.” (p.936)..Poemas-ensaio, essa sequência de 24 textos em prosa tem um propósito ético e estético: mostrar e demonstrar que o conceito surrealista do “viver absoluto”, ou a ideia da “santíssima trindade surrealista: amor, poesia, liberdade” não morreu.Ingenuidade? Combatividade? Fidelidade àquela seniana afirmação de que estar-se no mundo exige ser-se honrado por se estar vivo? Tudo isso, mas algo mais. Quando na secção “raridades” se escreve em prosa textos que são blocos narrativos e se diz que “isto não é um romance”, mas antes um retrato para “o incompreensível”, o que se declara é um princípio de literatura: o sujeito do texto, irónico, escarninho, fala de si próprio na 2.ª pessoa, põe a máscara da derrisão: “Queres insultar-me com a tua juventude”; “Investes tanto no ginásio como se fosse possível o passado ser infinitamente o teu futuro” (p.969) e, nessa cena a dois, que é luta pelo tempo e no tempo que se escoa, Luís Filipe Sarmento não se exime a praticar a literalidade, a rudeza: “És brutal! Como tu gostas, cavalgo-te sem freio, à desfilada (…)”.Não é, pois, uma poesia delicodoce, está inscrita no país e na Ibéria, na Europa e no Mundo. O singular surrealista que é o autor de Gramática das Constelações (2012), em Casa dos Mundos Irrepetíveis tem das mais incisivas leituras deste tempo tétrico: “A Europa está povoada de sombras nas páginas da História, / corpos opacos de morte, densos fantasmas da catástrofe, / que empunham armas sob um cenário celestial plúmbeo / negoceiam almas corruptas para que a eficácia do desaire / seja plena num território condenado à extinção” (p.839). O que vemos na evolução desta escrita é, cada vez mais, o abandono da primeira pessoa, agora um sujeito que, depois de “Estrangulada a morte no seu corpo” pode, numa distância defensiva e irónica, sabendo que não terá os louros da tribo, fumar um bom cigarro, “guardar na memória” a sucessão dos sorrisos de prazer e, na senda de um heterodoxo como Sena, reiterar a lição que lemos em “No país dos sacanas”.É que, na senda de Kavafis, o poema é, neste esquecido poeta português, neste resistente a uma arte que não o abandona porque ele não a abandonou nem traiu, o “Corpo-Mundo, substância plena que [lhe] salva o olhar” (p.800), como já era, em 1975, com A Idade do Fogo, na estreia, o último refúgio e o último reduto para que a vida em Portugal, saído do fascismo fosse possível. Essa visão crítica mantém-se, nesta que é hoje uma democracia de medíocres (a expressão é de José Gomes Ferreira, o poeta). Erótica, sensual, comprometida com aquela trindade surrealista - amor, liberdade, poesia -, feita ora de poemas longos, em verso livre, whitmanianos, ora com poemas em prosa-ensaio que dão a ver, de forma crua, a visão de mundo do autor; ora visual-experimental (veja-se Matinas Laudes, de 1994), jogando com arranjos textuais que dão voz à surrealizante polifonia (a itálico e a redondo, duas vozes se jogam semioticamente); ora figurando o poeta como aquele que fixa e desenha o fogo do poema e nele mergulha vendo “no texto a sedução pelo infinito”, LFS procura “palavras, avalanches, tempestades e letras” (p.322). A todo o instante parece questionar os seus contemporâneos: como poderemos continuar fazendo poesia se ela se transformar em mera forma de mercancia? E como falar entre nós, de poesia, se tudo obedecer ao espírito da inveja e da intriga que faz com que daquele não se fale, desta nada se diga? Como viver num ambiente assim medido pela régua da hipocrisia, da ignorância e da vileza - naquele sentido íntimo da vileza? Não sendo da nossa linhagem, a verdade é que Sarmento é fiel a um ideal. Isso vale.Ao Rubro (Poética Edições) é uma vida de poemas feita. Goste-se ou não, o livro está aí, na sua heteróclita escrita (também tercetos, também quadras, também haikus, manifestos, injunções, proclamações, exclamações devaneios, e decepções, sonhos e sono, as evidências contra as aparências), provocando quem, perante um livro assim, cinicamente o olhe, ou cobardemente o ignore. Porque, afinal, Luís Filipe Sarmento não ignorou nunca a realidade do real. Eliot reaparece, bem como outros mestres (Octavio Paz, na concepção surrealista-romântica da poesia como erótica verbal; Michaux e Pound, pelo sortilégio de uma textualidade convulsa, imaginativa, plural; Campos, O’Neill e também Pacheco, pelo sarcasmo e a ironia, a decepção e a magoada saudade dum quinto-império adiado, metido no lixo hodierno). O correlativo é, em Sarmento, mesmo objectivo porque “Esta terra devastada / revela ainda fragmentos / da civilização que fomos: / monumentos em ruínas / mostram aos sobreviventes / os mortos que somos” (p.700) Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico.