Literacia financeira: no comunismo não faz falta

Deputado da Iniciativa Liberal

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Segundo João Oliveira, a literacia finaceira é um embuste neoliberal. Na mesma senda, a matemática será, por certo, um engôdo burguês. E a economia, que reduziu o marxismo a uma nota de rodapé, fascista. Parafraseando Maslow, quando se tem uma foice na mão, até a tabuada é latifundiária.

Brincadeiras à parte, João Oliveira tem razão numa coisa: tempos houve em que a literacia financeira era opcional. Eram os gloriosos tempos da União Soviética, que ainda recentemente a sua colega-camarada Paula Santos exaltou no Parlamento. Nesse paraíso, as pessoas não tinham de se preocupar com dinheiro, com juros, poupanças ou investimentos. Primeiro, porque não havia o que poupar ou investir; segundo, porque a única preocupação era chegar cedo à fila do pão.

Na URSS, o cidadão não precisava de escolher entre produtos. Essa ansiedade neoliberal tinha sido abolida. Havia um produto (quando havia). Também não precisava de estudar juros. Não tinha o que comer, quanto mais no que investir. Contas só mesmo de dividir: dividiam o apartamento com estranhos e o pão com os filhos.

Também não havia obsessão capitalista com o orçamento familiar. Para quê? O Estado planeava tudo. Planeava o aço, o trigo, os sapatos e, no final, a falta de tudo isto. O Gosplan fazia contas por todos. Muitos planos, pouco pão. O cidadão ficava assim aliviado de perceber a inflação, a poupança ou o crédito. Para quê?

Este estilo de vida - chamemos-lhe assim - dispensa a literacia financeira. Se não há mercado, não é preciso percebê-lo. Se não há concorrência, não é preciso comparar. Se não há abundância, não é preciso escolher. Se não há escolha, não há erro. E se não há erro, o Partido tem razão. E se alguém discordar, nada que uma reeducação forçada num Gulag (os campos de trabalho forçado que a comunista e ex-directora do Museu de Aljube Rita Rato desconhecia) não resolva.

É esta a diferença entre uma sociedade livre e uma sociedade planificada. Na primeira, o cidadão aprende a defender-se: da promessa fácil, do contrato manhoso, do político que anuncia direitos sem dizer quem paga ou do que promete amanhãs que cantam. Na segunda, é protegido por uma entidade superior que decide por ele, pensa por ele e, quando corre mal, explica que a culpa é do imperialismo e da burguesia.

Compreendo, por isso, o desconforto comunista com a literacia financeira. Assume que as pessoas são adultas e que dispensam a tutela do Estado. Assume que podem saber, podem escolher, podem fazer perguntas. Podem perguntar quanto custa, quem paga, onde está o dinheiro e porque é que uma ideia tão bonita acaba tantas vezes em racionamento. Pior: podem decidir não escolher o comunismo. Vendo bem, manter as pessoas na ignorância é a única forma de manter vivo o embuste do comunismo.

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