Lisboa: o porto seguro de ontem e de hoje

Zeynep Tinaz Redmont

Jornalista turca a viver em Portugal, publica 'Lisbon Diaries' no Substack

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Sabe o que muitos intelectuais e artistas de renome mundial como Hannah Arendt, Marc Chagall, Max Ernst e Marcel Duchamp têm em comum?

Todos eles fugiram do regime nazi durante a Segunda Guerra Mundial, partindo em viagens transatlânticas a partir dos cais de Lisboa.

Estavam entre milhares de refugiados que passaram pela cidade a caminho da segurança. Portugal manteve-se neutro durante a guerra, e Lisboa tornou-se a última paragem europeia antes de chegar às Américas.

O artista português de graffiti de renome mundial Vhils imortalizou mais tarde um desses momentos num mural, baseado numa fotografia icónica de Roger Kahan. Mostra uma mulher de meia-idade, sozinha, mergulhada em pensamentos, com o rosto marcado por traços de tristeza. Veste chapéu e casaco pretos, sentada sobre a sua mala, ao lado de uma caixa de correio, à espera no cais de Alcântara.

A mulher permanece desconhecida, mas, através da obra de Vhils, já não é invisível, como o próprio fotógrafo Kahan, que viveu em Lisboa durante meses enquanto aguardava que os seus documentos fossem aprovados antes de embarcar num navio para Nova Iorque.

E, mais uma vez, nestes dias, Lisboa parece um porto seguro numa época conturbada.

O jornalista Ferreira Fernandes, autor de Cadernos do Arquivo sobre Kahan, disse à Mensagem de Lisboa que “aqueles com mais meios financeiros conseguiram fugir, vindo para Portugal”.

A história, ao que parece, está a repetir-se.

O número de residentes estrangeiros aumenta de dia para dia. Há cerca de 250.000 oriundos do subcontinente indiano, nepaleses, indianos e bangladeshianos, que trabalham principalmente como cozinheiros, empregados de mesa e motoristas de plataformas digitais.

Têm-se tornado cada vez mais alvo do partido de extrema-direita Chega, que construiu parte da sua retórica em torno da imigração. Um dos seus cartazes “Isto não é o Bangladesh’’ foi ordenado que fossem removido por um tribunal por poder incitar ao ódio.

Lisboa é também casa de grandes comunidades oriundas das antigas colónias portuguesas: Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde.

Também a guerra pressionou russos e ucranianos para virem para aqui.

Depois, há os recém-chegados mais abastados. Milhares de cidadãos dos Estados Unidos. Aumentou de cerca de 2800 em 2017 para mais de 20.000 em 2024, segundo a Agência para a Integração, Migração e Asilo (AIMA). Milhares de cidadãos de vários países da União Europeia também escolheram viver aqui.

Ricos ou não, muitos partilham o mesmo calvário: manter o estatuto legal, esperar interminavelmente por marcações na AIMA, enfrentar longas filas à porta dos seus serviços ao amanhecer, ou lutar para obter certificados de língua necessários para a nacionalidade.

É um processo exaustivo, tal como Hannah Arendt escreveu numa carta a uma amiga: “Não estou cansada, apenas um pouco exausta.”

Essa frase é citada no novo livro de Ece Temelkuran, Nation of Strangers: Rebuilding Home in the 21st Century.

Temelkuran, uma intelectual turca autoexilada que deixou o seu país após receber ameaças de morte pelos seus escritos críticos das medidas antidemocráticas do líder Recep Tayyip Erdogan, escreve sobre a dor silenciosa e contida de esperar em filas de vistos e imigração. O que a consola, diz, é partilhar esse destino com outros, daí o título: Nation of Strangers.

“(…) quando tanta terra se perde para guerras, fascismo e desastres ambientais, e tantos se tornam estrangeiros.’’

Ela argumenta que, em muitos regimes autoritários, as pessoas tornam-se “sem casa” mesmo vivendo nos seus próprios países.

“Estamos a perder a casa moral, política, espiritual e emocionalmente, e claro que milhões de pessoas estão a perder as suas casas fisicamente. Estamos a perder a casa moralmente porque todas aquelas instituições de que dependíamos para salvar e proteger a moralidade da Humanidade estão a desfazer-se. A falta de vergonha está a tornar-se a regra da nova ordem mundial,’’ afirmou recentemente numa conferência na Universidade de Cambridge.

“Estamos a tornar-nos espiritualmente sem abrigo porque a IA está a roubar a linguagem humana. O que é o humano, senão a linguagem?’’ acrescentou.

Temelkuran descreve a alegria relutante de receber a sua autorização de residência alemã de três anos como um frágil sentimento de segurança. Compara-o a “cair de costas na neve por diversão e, a meio, pensar que pode haver um prego’’. E, ainda assim, surge o alívio: sem mais formulários, sem mais filas, pelo menos por algum tempo. A autora vive em Berlim.

O livro segue-se à sua obra anterior, How to Lose a Country: The 7 Steps from Democracy to Dictatorship (Como Perder um País: Os Sete Passos da Democracia à Ditadura) uma alerta traduzido em várias línguas, incluindo o português. Ela escreveu o livro com base na sua experiência na Turquia, mas desde então afirma que o Brexit, Trump, Orbán e muitos outros desestabilizaram as democracias.

No novo livro, oferece algo mais esperançoso: a crença de que as pessoas começam novamente a confiar umas nas outras, percebendo que pertencem a uma Nation of Stangers - Nação de Estranhos.

Aponta até para os Estados Unidos:

“O luto pela perda de um lar pode ainda estar fresco para os americanos, mas em breve irão sentir essa alegria de estarem juntos. A dor continuará presente, mas será acompanhada pela exaltação quase divina de estarem ombro a ombro pela sua dignidade’’, diz, referindo-se ao levantamento em Minneapolis contra Trump como exemplo.

Mas onde fica o lar?

Talvez seja onde sentimos que pertencemos , até ao dia em que deixa de nos acolher. Levamos connosco a nossa língua, as nossas memórias, a nossa cultura… e seguimos em frente.

Para os estrangeiros, o apego material torna-se complicado.

“O lar de um estrangeiro torna-se apenas uma concha de caracol destinada a ser abandonada quando se quebra e, assim, não é dela, não lhe pertence. As coisas, mesmo as belas, são um peso; levá-las consigo exige responder a perguntas desanimadoras, como ‘e se tiver de partir novamente?’’’

E, ainda assim, Temelkuran termina com uma nota de esperança:

“Os estrangeiros estão em casa entre humanos, porque dependemos uns dos outros. Aqueles que veem bárbaros uns nos outros não estão. Podem possuir as terras que desaparecem, mas o amor mundi (amor ao mundo) pertence-nos.”

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