A vida não está fácil para José Luis Carneiro. As sequelas do consulado de António Costa ainda estão presentes no Partido Socialista, que no Congresso do fim de semana passado não fez um salutar processo de autocrítica dos erros da governação de Costa ou dos desvarios financeiros de José Sócrates.Como consequência disso o PS é hoje o terceiro partido, com menos força política. Perdeu quadros, há uma ausência penosa de representantes da sociedade portuguesa ligados à cultura, à ciência e à área empresarial. Não existem muitos jovens nas hostes socialistas. O PS continua balcanizado entre elementos de uma linha moderada, personificada por José Luis Carneiro e os defensores, agora calados, de uma aliança à esquerda, herdeiros da geringonça Costista.Carneiro tem, pois, a tarefa gigantesca de unir o partido, de lhe dar uma unidade que parece difícil de atingir e que, neste congresso, não foi materializada.Pergunta! Duarte Cordeiro e Fernando Medina foram ao Congresso? Se não foram, qual o significado da sua ausência? Estavam fora do país? Seja qual for o motivo da sua ausência faltar a uma reunião magna e tão decisiva do partido tem uma leitura e um significado político que não passa despercebido.José Luis Carneiro tem de pensar sobretudo no país. Mais do que no partido. Se conseguir uma aceitação nacional das suas propostas, e algumas são boas, o partido virá por arrasto. Quando cheira a poder, todos se juntam à fogueira.O sepulcral silêncio político de Montenegro, a sua incapacidade em encontrar reformas para o país, poderão ser a grande oportunidade de afirmação de José Luis Carneiro como alternativa ao Governo e renovação da vitalidade do PS.Montenegro teve no artigo de Cavaco Silva publicado no Expresso um sério aviso à sua estranha apatia no exercício governamental. O homem tem sido uma desilusão como primeiro-ministro.José Luis Carneiro trouxe ao Congresso do PS algumas boas intenções, mas a materialização das propostas está longe de ser correcta.A habitação não se resolve com medidas administrativas ou isenções fiscais. Isso foi chão que já deu uvas. A habitação resolve-se construindo casas. O Estado tem de construir habitação social. Tem de dinamizar ou obrigar os bancos a financiarem o sector cooperativo. Tem de forçar as câmaras municipais, que têm muitos terrenos, a construírem casas nesses terrenos. Tem de impedir os fundos financeiros de comprarem os terrenos mais valiosos à volta das grandes cidades, deixando-os a valorizar durante anos, para depois os venderem por valores especulativos. É isto que é preciso ser feito, José Luis Carneiro.E na saúde, de uma vez por todas, o PS tem de abandonar os seus complexos ideológicos em relação às PPP que Marta Temido e António Costa destruíram, retirando qualidade e operacionalidade ao Serviço Nacional de Saúde. Hoje a Saúde não tem solução sem a componente privada.Deixe-se de lirismos José Luis Carneiro. O que é isso de “propor uma Unidade de Emergência Pré-hospitalar, um forte investimento nos cuidados domiciliários”??? Seja directo e concreto. Meta as mãos na massa e não faça floreados que o país está farto disso.O Partido Socialista só sairá do buraco em que Costa e companhia o meteram com coragem política e medidas estruturais. Mais investimento público. Obrigar os bancos a colocarem a sua (enorme) disponibilidade financeira ao serviço das empresas, das pessoas, em vez de amealharem centenas de milhões de euros para os colocarem a render a juros elevados, descapitalizando os sectores produtivos da sociedade portuguesa.O PS está sem sangue novo. Já não se pode ouvir falar de Eduardo Cabrita e Inês de Medeiros, que Carneiro fez questão de incluir na sua lista da Comissão Nacional. Faça o que fez António Guterres. Abra as portas do PS a novos quadros da sociedade civil, com novas ideias, arejadas. Tente cativar os melhores.O PS tem de se abrir ao país e aos cidadãos, ter coragem de propor medidas que vão além da indigência do Governo de Montenegro, paralisado, vá-se lá saber porquê!A afirmação de José Luís Carneiro como líder do PS, está na qualidade das propostas e reformas estruturais que consiga apresentar ao país. Se conseguir essa qualidade, poderá aspirar a ser primeiro-ministro. Caso contrário, será apenas mais um líder de transição. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico.