O poema de abertura deste livro começa por uma espécie de injunção ao leitor: «Nunca é tarde para não ter medo / Nunca é tarde para murmurar, / ao ouvido de quem se ama / a flor de sal de um segredo […]» (p.13). Os versos subsequentes jogam com essa repetição em anáfora: «Nunca», lembrando uma matriz poética cara a José Carlos Vasconcelos: essa poesia que, de palavra em punho, foi inicialmente, nos idos de 1960, uma palavra de protesto contra a ditadura que era a «dita» política que durava e perdurava. É daí, dessa palavra de combate, que vem a poesia deste poeta que, formado na Coimbra contestatária do regime de Salazar e de Caetano, tem uma forte componente de compromisso social e se coloca – como palavra que procura reabilitar a Cidade – ao serviço da comunidade. O último poema desta colectânea, «Cama de Sol», é um belíssimo poema evocativo, uma cena da vida: o poeta vê um cartaz que diz «Aluga,-se colchões, toldos, camas de sol» e escreve, em clave intimista: «Cama de sol!/ foi o que sempre desejei / para minha vida para a minha morte // E aluguei uma / para a eternidade» (p.162). E por aqui poderemos caracterizar esta mesma palavra combativa como palavra pessoal, feita também desse lirismo da situação que tanto convoca poetas como António Reis ou Gillevic, como se reclama de uma tradição oitocentista e cuja geografia compete à de Vasconcelos: refiro-me a essa poesia da observação que, de António Nobre, sem esquecer um Gomes Leal e mesmo certa ambiência de Raúl Brandão, ou de um Afonso Duarte, coloca sob a égide da evocação dos lugares o verso coloquial, certa forma de olhar o lado secreto do real: «aqui no norte / a luz está no vento // e tanto vem do sol / como de sombras / em movimento // a luz com o seu quê / de sina e sorte / aqui no norte // aqui no norte / a luz no chão / brilha por dentro // luz que respira / e que se sente / a luz deitada / no areal // entre o sargaço / à flor beirada // que a mulher leva / com suor e arte / na velha bicicleta // aqui no norte / à luz em toda a parte // coisas de poeta» (p.160-161). Este livro com que José Carlos Vasconcelos regressa à poesia tem, como disse, uma injunção primeira, o poema «Nunca é tarde». Seguem-se sete secções, todas numeradas a romano, perfazendo ciclos de textos que, se leio bem, revelam, como se o livro fosse um poliedro, as vãrias facetas de um «eu» da escrita. Ou de alguém, que, chamando-se José Carlos Vasconcelos, é e não é o conhecido jornalista, o homem de cultura, o exímio leitor da política, o fundador do Jornal de Letras. São, pois, inquirições, ou sondagens da vida e há, a pontuar esse discurso da memória, momentos (os pontos luminosos de Pound), em que é obrigatória a paragem. Por exemplo na secção I, o poema «O velho espelho», cujo texto, obedecendo ao texto anterior, «Que será de mim?», é um extraordinário exercício de auto-ficção: «quem é aquele / ali / sentado // do outro lado / do espelho // e eu aqui / de novo? / eu velho? // eu futuro? / eu passado?». Exercício de autor-retrato, entenda-se: de questionamento desse outro que se sabe de geografias e de tempos vários e que, por isso, é um eu dividido, múltiplo. Um sujeito onde, apesar de certa bonomia, há um subterrâneo movimento deceptivo: «procuro / e não me encontro / no espelho // nem no quatro escuro / nem no palco iluminado» e por isso, a tese: nem perdido, nem partido, nem uno nem vário. Um eu «ombro a ombro / com o real / o puro real // imaginado / imaginário» (p.41). Pontos luminosos a cada secção, isto é, poemas que fixam em imagens e modulações várias o «mundo mundo vasto mundo» que é o de José Carlos. Entre a condoída recordação materna, ou contemplando as glicínias; com as mãos nos bolsos ou guiado pela «estrela da paixão», há, sobretudo, um dado essencial que não podemos deixar de ler no poeta de Os Sete Sentidos e Outros Lugares, sintomático título desta colectânea. E que dado essencial é esse? A maestria versificatória do autor. Leia-se: o ritmo de rimance (esse magnífico e jocoso poema que é «Romance do dia em que se fazia a marmelada», que abre a secção II), mas também a arte do soneto num poema como «O prazer da mão e do cursivo» (soneto dedicado a Lídia Jorge), para além de ritmos vindos da «terza rima» (na secção III a magistral lição fonomelódica de «Quarto vazio como um deserto»), ou os dísticos de «Domingo», ou a quadra, em jeito de inscrição do poema «Lava» («Na noite límpida, quente, incandescente / em que brilham sete luas e sete sóis / a lava da paixão escorre pela cama / embrulhada na leve seda dos lençóis»). Quer dizer, ao longo destes sete andamentos do livro – o extravasar dos cinco sentidos – o que José Carlos Vasconcelos coloca na cena de cada página é não só aquele ritmo da recordação-memória que é sempre a procura por eternizar o efémero, mas é também saber de leituras feito, a sageza de uma vida aprendida e apreendida no contacto plural com a pluralidade do humano. Nas secções VI e VII são muitas as estâncias onde o leitor deve, de novo, parar, ler e observar bem como esta poesia – sem o querer ser, e mesmo sem o parecer – é um guia de formas poéticas. Coloquialismo e tensão clássica, frase corrente e pontuações irónicas, no cendal íntimo desta poesia tem especial relevo o eco, ou os ecos, da poesia brasileira. Affonso Romano de Sant’Anna é, para além do destinatário de um poema de forte invenção verbal, a prosopopeia da poesia. Quer dizer: o sujeito lendo um livro – o do poeta brasileiro - «cheio de mundo e de morte» no café da Guia, está já às portas do «terceiro milénio», «nistzscheano». É a poesia de um poeta do outro lado do mar que, de algum modo, compensa a ameaça desse céu ominoso que funciona como símbolo de uma época em que ao poema sucede o símbolo do nosso tempo: um «helicóptero / sem hélice num céu cinzento-escuro» (p.118). Que cada secção seja, então, o convite a que sigamos o poeta nos seus «sete sentidos» (se o sexto é a intuição, o sétimo será a poesia), isso faz deste regresso de José Carlos Vasconcelos à literatura – lugar de onde nunca, na verdade, saiu – um desses momentos em que, neste tempo de corvos, cobras e chacais, um poeta vindo de uma época de combate, de algum modo nos diz, olhando para a passerelle de praias e de tempos, vendo, cáustico, a desigualdade do mundo, que a poesia ainda é possível. Isto é, que o mundo é possível – até porque «pretos brancos pretos pardos», ou «pretos pretosindianos / pretos pretos amarelos / pretos claros brasileiros / pretos brancos à mistura / (com romenos ucranianos)» é de humanidade que se trata. É de poesia que se trata, muito para além dos selectos convivas de outros tempos, quando o Tamariz era reservado só a uns poucos. O mesmo com a poesia – feita por todos, disse-o Ruy Belo (di-lo Zé Carlos)