Jorge Molder em dupla autorrepresentação no CIAJG

Helena Mendes Pereira

Gestora cultural e curadora

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Desço desde a Rua da Prata ao Cais das Colunas, corro do Cais do Sodré à Avenida 24 de Julho para encontrar Jorge Molder (Lisboa, 1947) e a fotografia de grande formato da série A Origem das Espécies (2011-2012), apresentada originalmente em 2012 na Guardini Stiftung, em Berlim, e que foi instalada em Lisboa em 2018 no âmbito do projeto BillBoard, com curadoria de Sandro Resende e que tinha como objetivo transformar suportes publicitários em espaços de arte contemporânea, subvertendo a sua função original.

Na conversa que tive o privilégio de ter com Jorge Molder no seu atelier, há cerca de um ano, tínhamos falado desta imagem, naquele lugar e de como, nem naquele caso, nem outro, se tratava de um autorretrato, mas de uma autorrepresentação. Este é um tema fundamental para entender o seu percurso e a sua obra, como é essencial para compreender uma parte significativa da fotografia e da produção artística contemporânea desde os anos de 1970. A distinção entre autorretrato e autorrepresentação não é apenas terminológica: corresponde, antes, a duas conceções profundamente diferentes da imagem, do sujeito e da identidade.

Tradicionalmente, o autorretrato pressupõe que existe uma continuidade entre três elementos: a pessoa real, o sujeito representado e a imagem produzida. Mesmo quando o artista introduz idealização, teatralidade ou simbolismo, o objetivo continua a ser representar-se a si próprio. Rembrandt, Van Gogh, Egon Schiele ou Frida Kahlo fazem autorretratos porque a questão principal é sempre: “Quem sou eu?” E a imagem funciona como uma investigação da identidade do artista. Mas, durante o século XX, esta ideia começa a ruir e a filosofia contemporânea coloca em causa a existência de um “eu” estável.

Nietzsche, Freud, Lacan, Foucault e Derrida mostram que o sujeito é fragmentário, múltiplo, construído socialmente e linguisticamente, e se o “eu” deixa de ser uma entidade fixa, o autorretrato clássico torna-se problemático. É neste contexto que surge o conceito de autorrepresentação, em que o próprio corpo passa a ser utilizado como matéria, deixando o artista de representar-se, passando a representar possibilidades, personagens, estados, construções.

É exatamente isto que Jorge Molder afirma repetidamente: as suas obras mostram uma figura construída, uma máscara, um ator, uma presença.

Jean-Luc Nancy talvez seja o filósofo que melhor explica esta mudança no pensamento e na estética da segunda metade do século XX. Para Nancy, contemporâneo de Molder, o sujeito nunca coincide consigo próprio e existe sempre uma distância entre nós e a nossa imagem.

A autorrepresentação trabalha precisamente esse intervalo, não procurando eliminar essa distância, mas evidenciando-a e, em Molder, esta diferença torna-se evidente. O seu rosto (ou as partes do seu corpo) nunca funcionam como identificação, mas antes como um território experimental e, ao longo das várias séries que desenvolve, rosto e corpo envelhecem, desaparecem, transformam-se, duplicam-se, fragmentam-se, teatralizam-se e nunca sabemos exatamente quem estamos a ver, nem isso tão pouco interessa.

Jorge Molder licenciou-se em Filosofia na Universidade de Lisboa. Esta formação inicial é essencial na compreensão da sua obra e é talvez por isso que, embora seja frequentemente identificado como fotógrafo, Molder sempre recusou uma compreensão estritamente técnica ou documental da fotografia. Para ele, a fotografia constitui antes um instrumento de pensamento, uma forma de construir imagens capazes de interrogar a identidade, a memória, o desejo e a condição humana.

Começou a expor regularmente na década de 1970 e afirmou-se internacionalmente a partir dos anos 1980. Em 1999, representou Portugal na 48.ª Bienal de Veneza. Obras suas integram hoje as mais relevantes coleções institucionais europeias. Atualmente, o Centro Internacional de Artes José de Guimarães apresenta Come di, uma exposição concebida por António Neves Nobre, Miguel Wandschneider e pelo próprio Jorge Molder e, de acordo com o (único) texto de parede da exposição, trata-se da retrospetiva sistemática da obra de Jorge Molder, embora deliberadamente parcial, ao centrar-se no período compreendido entre 1991 e 2003, momento em que a autorrepresentação se torna o eixo estruturante da sua prática artística. A exposicão complementa-se com algumas séries dos anos 1980 que antecipam essa viragem.

Come di divide-se em duas partes consecutivas e a segunda arranca a 26 de setembro de 2026. Sou teimosa nos conceitos e se é parcial, por que não dizer-se antológica? Mas isso não é o mais importante: o mais importante é a obra e qual a importância, para a região, de poder ver-se Molder ali, em Guimarães, no prestigiado CIAJG. A essa inegável importância faltou-lhe o esforço de a fazer chegar aos públicos, com mediação emancipada e um pouco mais de esforço de comunicação para com o visitante do museu, daquele museu.

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