Corria o ano de 2011 quando Mário Soares publicou o ensaio autobiográfico, político e ideológico Um Político Assume-se. O título revelou-se particularmente feliz: não só descrevia com rigor a vida e o modo de estar de Mário Soares, como acabou por se tornar um verdadeiro critério distintivo entre dois tipos de atores públicos. De um lado, os que assumem inequivocamente que fazem política, com o objetivo de garantir direitos e liberdades, gerir recursos públicos, criar impacto económico e influenciar o futuro do país. Do outro, aqueles que constroem carreiras alavancadas na política partidária, mas dela se afastam sempre que tal lhes convém, num exercício de cinismo cuidadosamente calculado.Esta reflexão serve de enquadramento para compreender o acordo que Carlos Moedas celebrou com a extrema-direita, à revelia dos lisboetas e sem nunca ter assumido, durante a última campanha autárquica, que essa seria uma opção em cima da mesa.O mesmo Carlos Moedas que acusa de “radical” qualquer exercício legítimo de oposição ao seu paupérrimo desempenho enquanto presidente da Câmara Municipal de Lisboa é, afinal, o Carlos Moedas que faz acordos de bastidores com o Chega, negociando lugares em troca de votos favoráveis ao Orçamento Municipal e, simultaneamente, tentando silenciar os seus opositores políticos.Há aqui uma contradição difícil de ignorar. O autarca obcecado com a imagem e com a comunicação, que procura afastar-se da figura do político tradicional desgastado pelo populismo, é o mesmo que decide “comprar” uma vereadora que, por curiosa coincidência, abandona o Chega para assumir pelouros, como o do Desperdício Alimentar, que certamente seriam apelidados de tachos no linguajar do próprio… Chega. Um gesto que diz muito sobre a natureza real deste entendimento e pouco sobre coerência política ou respeito pelo eleitorado.Carlos Moedas governa agora com uma maioria que os lisboetas não lhe deram nas urnas. E, com isso, deixaram de existir desculpas. O mandato que aí vem adivinha-se particularmente exigente: a vitimização tem agora a perna tão curta como a mentira. Durante quatro anos, repetiu até à exaustão que não fazia mais porque “não o deixavam”, recorrendo sistematicamente à poderosa máquina de comunicação que montou no município. Essa narrativa está, a partir de agora, esgotada.Sem obras planeadas pelo Executivo liderado por Fernando Medina para inaugurar, e sem eventos excecionais, como a visita do Papa, que lhe permitam ganhar protagonismo mediático, resta-lhe apenas um caminho possível: arregaçar as mangas, governar efetivamente a cidade e pensar mais em Lisboa e menos numa estratégia pessoal para substituir Luís Montenegro. O acordo de Moedas com o Chega tem essa virtude: já não há desculpas para não fazer, Carlos!