Mais de um milhão de pessoas, em 17 países europeus (15 mil em Portugal), confrontam a União Europeia com o seu silêncio e a incapacidade de se posicionarem face ao governo de Israel. Esta indignação não nasceu ontem. Cresceu com o genocídio e agudizou-se com a vergonhosa celebração no Parlamento israelita da lei da pena de morte para palestinianos. Transformou-se numa exigência moral clara: a de que a Europa deixe de ser cúmplice pela inação. Por isso, a proposta de Pedro Sanchéz – exigir à União Europeia o fim do acordo de associação com Israel – é o mínimo que se pede. E chega com um atraso que envergonha.A Europa assiste ao genocídio em Gaza, ao avanço contínuo dos colonatos, à escalada de violência que atinge sobretudo civis – com um peso insuportável sobre crianças. Assiste, também, à erosão e desrespeito pelo Direito Internacional e à sua substituição por uma lógica de força que a própria Europa, ironicamente, diz rejeitar. Alinha, quase sempre, acriticamente, com os Estados Unidos, sacrificando qualquer pretensão de autonomia estratégica. É uma escolha política.Essa escolha expõe uma contradição profunda: a União Europeia proclama-se comunidade de valores, mas age como bloco de conveniências. Invoca o Direito Internacional quando lhe interessa, ignora-o quando incomoda. Exige responsabilidade a uns, poupa outros. E, nesse duplo critério, perde autoridade – política e moral.Parece agora querer dar sinais de despertar. Mas a pergunta impõe-se: será este um sobressalto momentâneo ou o início de uma mudança real? Assim que foi noticiada a iniciativa de romper com o acordo de associação, a representante da UE apressou-se a pôr de novo na agenda a solução dos dois Estados, mas nunca colocando em causa a devastação espalhada por Israel, como se esta não tivesse por objetivo aniquilar a terra palestina.Entretanto, no terreno, a realidade não espera. O governo de Benjamin Netanyahu mantém uma estratégia assente na perpetuação do conflito. A instabilidade não é apenas um efeito colateral - é um instrumento político. Serve para adiar responsabilidades, evitar escrutínio e consolidar poder interno. E é aqui que a Europa tem falhado: na incapacidade de nomear o que vê.No espaço ibérico, o contraste é evidente. O Estado espanhol decide agir, assumindo custos políticos. Portugal escolhe alternar entre o silêncio e a condenação acanhada. É alinhamento passivo. É ausência de posição. Esta semana, o relatório da Amnistia Internacional é claro: Portugal violou o Direito Internacional Humanitário ao permitir que caças F-35 fizessem escala na Base das Lajes, caças esses vendidos pelos EUA a Israel. Manter relações diplomáticas como se nada fosse é, na prática, normalizar o que se diz condenar.Cortar relações diplomáticas com o governo de Israel, com um líder sob acusações de crimes de guerra, não é extremismo. É coerência. E, neste momento, a coerência é a única forma de a política recuperar alguma dignidade.