Investimento em investigação e desenvolvimento

Filipe Froes

Doutorado em Saúde Pública e membro do Conselho Nacional de Saúde Pública

Publicado a

“A saúde é um investimento,

não uma despesa!”

Suwit Wibulpolprasert,

prestigiado médico tailandês

e especialista em saúde pública,

políticas de saúde e saúde global (1953)

Segundo um relatório de março deste ano da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), ocorreu algo tão previsível quanto merecedor da maior atenção. O investimento da República Popular da China em investigação e desenvolvimento (I&D) atingiu um marco extraordinário: superou um bilião de dólares, igualando o dos Estados Unidos da América (EUA) e ultrapassando-o em termos de paridade do poder de compra. Em português europeu, um bilião de dólares corresponde a um milhão de milhões de dólares, o equivalente ao trilião norte-americano.

O investimento em I&D é determinante para a liderança em ciência e tecnologia, e esta nova realidade pode mudar o centro de gravidade da Humanidade. Em 1948, os EUA ultrapassaram o Reino Unido e, ao longo dos últimos 80 anos, alcançaram um desenvolvimento científico e tecnológico ímpar, traduzido, entre outros avanços, na criação da internet, na informatização da sociedade, nas telecomunicações, no Sistema de Posicionamento Global (GPS) e na interligação social.

Este desenvolvimento representou um ponto de viragem e foi decisivo para o domínio político, económico, científico e cultural dos EUA no mundo, refletido, por exemplo, na liderança na atribuição de Prémios Nobel. A Saúde acompanhou esse período com uma expansão extraordinária do conhecimento sobre as doenças, dos meios de diagnóstico, da terapêutica e da prevenção, como demonstra a atribuição do Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2023 à tecnologia de RNA mensageiro usada nas vacinas contra a covid-19.

O marco alcançado pela China no investimento em I&D culmina uma série de conquistas que se sucederam rapidamente. Se, em 1980, a China estava entre os países que menos investiam nesta área a nível mundial, em 2019 ultrapassou os EUA na proporção de artigos pertencentes ao 1% dos mais citados e, em 2022, passou a ocupar o 1.º lugar mundial nos artigos mais citados. Desde 2000, 40% dos Prémios Nobel da Medicina, Química ou Física atribuídos a norte-americanos foram ganhos por imigrantes. Estes dados assinalam uma mudança de paradigma quanto ao local onde se situa a nova fronteira científica mundial.

A progressão da China é uma boa notícia. Mais investimento significa mais conhecimento e mais descobertas com benefícios para todos. O problema não está na China investir, mas sim nos cortes ao investimento pela atual Administração Trump nos EUA e, sobretudo, no risco de a União Europeia não acompanhar estes objetivos e agravar a sua dependência estratégica. Um tema a merecer a maior atenção e que Portugal deveria aproveitar para sensibilizar os restantes países europeus.

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