Richard Susskind perguntou em 2008 se os advogados teriam fim. Foi lido como um profeta excêntrico. Hoje a pergunta mudou de natureza. Devo dizer que gosto de o ler, desde logo porque entende que o tribunal é uma circunstância e não necessariamente apenas um espaço físico. Um apóstolo do fim. Já não se trata de saber se a Inteligência Artificial fará o trabalho jurídico. Fá-lo. Redige contratos, resume acórdãos, prepara peças, encontra jurisprudência em segundos. A pergunta honesta é outra: o que fazíamos nós, afinal, que valesse tanto?A resposta incomoda. Grande parte da prática jurídica foi sempre trabalho de escriba. Copiar minutas, adaptar formulários, traduzir a lei para prosa ritual. Cobrava-se caro por uma escassez artificial, a do acesso ao texto e ao rito. Essa escassez acabou. Uma máquina lê num dia mais doutrina do que um jurista numa vida. Defender que o cliente deve continuar a pagar horas de pesquisa que um sistema resolve em minutos não é deontologia. É renda de monopólio.Prevejo as objeções. A máquina alucina, não tem prudência, não responde perante a Ordem. Tudo verdade e tudo transitório ou contornável. O erro está em pensar que a profissão se salva apontando defeitos à tecnologia. Os cocheiros também apontavam defeitos ao automóvel. Quando a água corrente, em torneiras nas cidades, tornou inexistente o trabalho dos aguadeiros, algo semelhante aconteceu.O que sobra, então? Sobra o que nunca foi automatizável e que a profissão, ironicamente, deixou atrofiar. Sobra o juízo, a capacidade de dizer a um cliente que tem o direito do seu lado, mas não a razão. Sobra a responsabilidade, alguém que assina e responde. Sobra a estratégia, saber o que não perguntar, quando não litigar, como perder bem. E sobra a política do direito, o desenho das regras num mundo em que as máquinas também as aplicam.A consequência é dura para as faculdades, incluindo a minha. Continuamos a treinar estudantes para tarefas que já não existirão quando terminarem o curso. Ensinamos a memorizar o que qualquer sistema recupera e pouco ensinamos a duvidar, a negociar, a decidir. O jurista do futuro será menos técnico e mais tradutor entre a norma, a máquina e a vida. Ou será supervisor de sistemas que aplicam o direito em massa, o que exige saber exatamente como falham. Domadores de leões, como eu dizia aos meus alunos, até antes da IA.A profissão manter-se-á, mas não como está. Sobreviverão os que perceberem que a IA não veio tirar-lhes o lugar. Veio revelar quanto desse lugar era ocupado por trabalho que nunca mereceu o nome de jurídico. Aos outros restará a nostalgia da toga, que é um sentimento respeitável - e economicamente irrelevante.