Influenciar é um comportamento tão comum como a natureza humana. A larga maioria dos seres humanos já influenciou, ou tentou influenciar, outros seres humanos.Os pais influenciam os filhos. Os irmãos mais velhos influenciam os mais novos. Os professores influenciam os seus alunos. Os artistas mais conceituados e respeitados – pintores, escultores, arquitetos, compositores, atores, cantores – influenciam os que se iniciam nas respetivas atividades.Há mesmo profissionais que desenvolvem a sua atividade no domínio específico da influência: vendedores, especialistas em marketing, políticos, críticos literários, musicais, teatrais, cinematográficos, lobbyists.Neste contexto, foi-me difícil compreender o que haveria de especial na palavra “influenciador”. Consultado o dicionário – no caso, da Porto Editora –, além da definição óbvia de influenciador como aquele que influencia, surge o influenciador digital: “Pessoa que, por reunir um grupo significativo de seguidores em redes sociais ou plataformas de comunicação online, tem a capacidade de gerar interesse em determinada marca, serviço, produto ou causa, através das referências ou das recomendações que faz nesses meios.”Nesta longa definição, sobressaem dois aspetos: a natureza predominantemente comercial da influência (as causas aparecem em último lugar) e a existência de seguidores nas redes sociais. O influenciador digital corresponde ao influencer da língua inglesa – ou corresponderia, se a palavra existisse, o que é tudo menos certo. O conceituado dicionário Merriam-Webster, por exemplo, ignora o termo, limitando-se a referir a palavra influence e alguns seus derivados, como influenced.O que há de peculiar no uso atual (com não mais de meia dúzia de anos) dos termos influencer ou “influenciador” é que aqueles que assumem, ou pretendem, sê-lo o consideram uma profissão. Ora, se tivermos presente a definição do dicionário português, tal profissão consistiria em ganhar a vida através da influência exercida, em regra com finalidades comerciais, sobre outras pessoas, através das redes sociais.Na verdade, como vimos, essa atividade, na sua essência, existe há muito. Sucede que esses “influenciadores” avant la lettre, exerciam a sua influência porque lhes era reconhecida especial qualificação, conhecimentos ou reputação, que tornavam a sua influência – veiculada, em regra, por órgãos da comunicação social – respeitada.É aqui que entra a segunda parte da definição – as redes sociais.As redes sociais, com o seu gosto pela boçalidade e o insulto, nivelaram o discurso por baixo, convertendo todas as pessoas, por mais tolas, imbecis ou ignorantes que sejam, em potenciais influenciadores, capazes de condicionar as ações de um cada vez maior número de “seguidores”, tão tolos, imbecis ou ignorantes como eles.Num mundo de crescente mediocridade, poderíamos mesmo formular uma nova Lei de Murphy: por mais idiota que seja um influenciador, o número dos seus seguidores tende a aumentar.