Ao longo dos últimos 50 anos, as vacinas salvaram mais de 150 milhões de vidas em todo o mundo — o equivalente a seis vidas por minuto, todos os dias. Este é um dos maiores sucessos da Saúde Pública global, assente na ciência, na confiança e numa decisão simples, mas poderosa: prevenir para proteger. É neste contexto que se assinala a Semana Europeia da Imunização, sob o lema da Organização Mundial da Saúde (OMS) “Para cada geração, as vacinas funcionam”. Portugal faz parte desta história de sucesso. O Programa Nacional de Vacinação (PNV) é, indiscutivelmente, um dos exemplos mais sólidos e eficazes da Saúde Pública em Portugal. Graças a ele, erradicámos ou controlámos doenças que marcaram gerações, garantindo um início de vida mais seguro para as nossas crianças.Mas o sucesso do passado não pode ser motivo para complacência. Pelo contrário, deve ser o alicerce para responder aos desafios do futuro. Hoje, somos confrontados com uma realidade clara: a imunização não termina na infância ou na adolescência.Num país que envelhece rapidamente, a proteção da saúde tem de acompanhar as pessoas ao longo de toda a vida. A OMS é inequívoca ao afirmar que vacinar em todas as idades é essencial para promover um envelhecimento saudável, melhorar a qualidade de vida e aliviar a pressão sobre sistemas de saúde já sobrecarregados.Portugal enfrenta uma transição demográfica acelerada, com uma população cada vez mais envelhecida e uma maior prevalência de doenças crónicas. Este cenário coloca uma pressão crescente sobre o Serviço Nacional de Saúde (SNS), particularmente durante os picos sazonais de doenças respiratórias, como a gripe. Neste contexto, a prevenção deixa de ser uma opção para se afirmar como um pilar estruturante de um sistema de saúde resiliente e sustentável.Proteger a população adulta e idosa através da imunização não é apenas um ato de responsabilidade individual; é uma estratégia de Saúde Pública com impacto direto na redução de hospitalizações evitáveis, na preservação da autonomia dos cidadãos e na sustentabilidade económica e social do país.No entanto, o progresso alcançado nas últimas décadas não está garantido. A própria OMS alerta que, só em 2024, cerca de 20 milhões de crianças em todo o mundo ficaram com esquemas de vacinação incompletos, incluindo mais de 14 milhões que não receberam qualquer dose. Num mundo mais interligado, falhas na prevenção em qualquer fase da vida representam vulnerabilidades para todos. A proteção da população exige uma abordagem contínua, coerente e sustentada.É neste enquadramento que a visão da “Imunização dos 0 aos 100” se torna não apenas pertinente, mas imprescindível. Esta ambição encontra hoje um caminho concreto sustentado por um alinhamento raro de fatores. Por um lado, a recente resolução da Assembleia da República, que apela à revisão do PNV do adulto, cria o enquadramento político necessário.Por outro, propostas como a estratégia ‘95-95-95’, defendida por especialistas nacionais — inspirada no modelo utilizado no combate ao VIH e adaptada à vacinação, propondo atingir 95% de cobertura vacinal em três grupos prioritários: pessoas com mais de 65 anos, doentes crónicos e profissionais de saúde — oferecem uma base técnica sólida para reduzir o impacto das infeções e reforçar a proteção dos mais vulneráveis. A Semana Europeia da Imunização reforça a urgência de transformar esta recomendação em ação.Adotar uma abordagem de imunização ao longo da vida é um investimento com retorno claro e mensurável. Traduz-se em menos internamentos, maior qualidade de vida, mais anos de vida saudável e maior produtividade para a sociedade. Mais do que isso, significa garantir que o SNS pode concentrar os seus recursos onde são verdadeiramente necessários, reforçando a sua capacidade de resposta.Portugal tem, novamente, a oportunidade de liderar pelo exemplo. Temos o conhecimento científico, a experiência de um Programa Nacional de Vacinação reconhecido internacionalmente e um consenso crescente entre profissionais de saúde, decisores e sociedade civil. Alargar o paradigma da prevenção à idade adulta é a evolução natural do nosso compromisso coletivo com a Saúde Pública.Que esta Semana Europeia da Imunização seja o impulso para construirmos, em conjunto, um futuro em que cada geração esteja protegida e, assim, toda a população mais segura e resiliente. Porque quando protegemos cada geração, protegemos toda a sociedade — dos 0 aos 100. Fontes:Global childhood vaccination coverage holds steady, yet over 14 million infants remain unvaccinated – WHO, UNICEFWorld Immunization Week 2026Resolução da Assembleia da República n.º 14/2026, de 27 de janeiro | DR