A divulgação dos novos dados do INE recolocou a imigração no centro do debate político. Portugal tem hoje 11,4 milhões de habitantes, dos quais 14% são estrangeiros. Em 2020, a população de origem estrangeira representava 7,1%; em 2025, duplicou. Os números não surpreendem quem acompanha a evolução demográfica, mas o selo oficial do INE confere-lhes outra relevância.O PSD, pela voz de Sebastião Bugalho, quer ouvir no Parlamento vários ex-ministros socialistas, incluindo o atual líder do PS, José Luís Carneiro, para explicar o rápido aumento da população migrante. No entendimento do Governo, esse crescimento colocou pressão acrescida sobre serviços públicos já fragilizados. Outros lamentam que Portugal tenha descido em rankings internacionais, como o do PIB per capita, por ter afinal mais população do que se pensava.. Há pelo menos três aspetos que merecem ser ponderados com serenidade.O primeiro tem a ver com a economia. O aumento da população imigrante em Portugal esteve em linha com o que se passou no resto da Europa na última década. No caso português, o motor da economia foi um mercado de trabalho robusto, alimentado pela chegada de mais de meio milhão de imigrantes. Este foi o segredo da performance económica e das contas públicas dos Governos de António Costa, juntamente com o aumento da receita fiscal por via de novos impostos indiretos e do controlo da despesa através das célebres cativações. Em junho do ano passado, no 110.º aniversário da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras, um dos arquitetos desta estratégia, Mário Centeno, defendeu o seu legado, lembrando que o crescimento económico permitiu duplicar os salários das famílias portuguesas, em termos absolutos. “Em 2014, pagaram-se 30 mil milhões em salários às famílias portuguesas. Em 2024, este valor já era superior aos 60 mil milhões de euros. Fizemos mais para melhorar os salários das famílias nestes dez anos do que nos 900 anos anteriores”, afirmou o antigo ministro das Finanças, numa intervenção noticiada na altura pelo DN.O segundo aspeto tem a ver com a sustentabilidade do modelo económico e social. Sem imigração, o país não teria conseguido manter o ritmo de crescimento dos últimos anos. O Produto Interno Bruto teria crescido menos e o seu valor per capita seria provavelmente inferior ao atual, mesmo com a atualização do INE. A própria manutenção do Estado Social estaria em causa. A imigração foi - e continua a ser - necessária para sustentar a economia de um país envelhecido e em declínio demográfico.."O mercado de trabalho robusto, alimentado pela chegada de mais de meio milhão de imigrantes, foi o principal motor do crescimento económico e da melhoria das contas públicas nos últimos dez anos.”.O terceiro aspeto diz respeito às falhas de controlo. As críticas às manifestações de interesse e à ausência de mecanismos eficazes de gestão migratória são fundamentadas. A população migrante duplicou em poucos anos, pressionando serviços públicos e alimentando tensões sociais que fragilizam a democracia. A rapidez do fenómeno deixou o país sem capacidade de resposta.Tudo isto merece ser analisado de forma séria, sem cair na ilusão populista de procurar soluções simples para problemas complexos. A imigração não é um slogan, nem um espantalho político. É uma realidade estrutural que molda o futuro do país e que, sobretudo, diz respeito às vidas de muitos milhares de pessoas. Exige que Portugal encontre um equilíbrio entre crescimento económico, coesão social e controlo eficaz das entradas - três dimensões que não são mutuamente exclusivas, mas que exigem estratégia, rigor e visão. E que têm de ser conciliadas com os valores democráticos e humanistas que partilhamos como país.