Há dois anos e meio escrevi nestas páginas sobre os erros da política de imigração que íamos pagar caro. Faltava organização, faltava método, faltava controlo de fronteira. Sobrava ideologia. Escrevi sobre a extinção do SEF, decidida sem substituto à altura, e sobre o que ela significava para a verificação de antecedentes e para a cooperação europeia. Quem passou uma vida a olhar para o Estado pelo lado da segurança sabe que uma fronteira não avisa quando cede. Cede em silêncio, e depois contam-se os danos. Não retiro uma linha.Esta semana, o INE reviu a população residente e os números já não permitem ilusão: somos 11,4 milhões, dos quais 1,6 milhões são estrangeiros. A subida concentrou-se entre 2022 e o primeiro semestre de 2024, antes de o Governo actual acabar com a manifestação de interesse. Não são datas de conveniência. São as que os próprios dados administrativos revelam.Durante anos celebrámos o crescimento da economia sem olhar para a coluna do lado. Foi crescimento de escala, alimentado pela entrada maciça de imigrantes sem selecção, enquanto a geração mais qualificada de sempre saía à procura de salários e de futuro. Importámos trabalho e exportámos capital humano. Chamar a isto milagre é contabilidade criativa: o PIB subia, o PIB por pessoa dizia outra coisa. E quando se argumenta que esses imigrantes salvam a Segurança Social, confunde-se liquidez de hoje com solvência de amanhã. Quem entra a descontar adquire direitos diferidos, e num sistema de repartição a factura chega quando se reformar. Sem o salto de produtividade e de salários que ninguém prepara, o alívio não resolve o envelhecimento. Adia-o, e devolve-o agravado.É este o equívoco maior. Uma economia que tapa a falta de trabalhadores com mão de obra barata, sem plano, não prepara o futuro; adia-o. Já o escrevi a propósito da Inteligência Artificial: o modelo assente em trabalho barato, nacional ou importado, não tem décadas de vida, tem anos.A automatização é a única forma sustentável de manter produtividade numa sociedade que envelhece, desde que a acompanhe uma economia de alto valor que ainda não construímos. Defender o modelo antigo é defender a nossa irrelevância económica programada.Por isso, surpreende o presente. Em vez da humildade de quem geriu o descontrolo, tenta-se reabilitar a política anterior como opção lúcida, e não como ausência de opção. O erro não se corrige defendendo-o. Agrava-se, porque coloca o país no eixo mais permissivo da Europa, o que vários eleitorados de esquerda já rejeitaram. E não é preciso ir à direita buscar o contraponto.A Dinamarca, governada por social-democratas, com Estado Social intacto e as mesmas necessidades de mão de obra, fez do controlo efectivo uma política séria de Estado. Em 2024 concedeu asilo a 860 pessoas, um dos níveis mais baixos em décadas. Não foi a direita radical que ditou este novo normal. Foi a social-democracia que decidiu ser séria. Corrigir o rumo não é render-se a ninguém. É a exigência que a esquerda europeia madura já cumpriu, e que a portuguesa ainda finge não ver.Há, no meio disto, um comportamento que merece nome exacto. O núcleo que geriu esta política tem, pelo menos, o interesse legítimo de defender as próprias costas, e quem teve a tutela sabe porquê. Já os que se lhe juntaram não têm essa desculpa. Assistiu-se à formação de um coro de comentadores e supostos analistas em defesa do indefensável, a racionalizar o erro sem que o autor do erro o tivesse pedido. Não é coordenação. É reflexo. E o reflexo, num analista, é a confissão de que já não há juízo próprio a exercer.O assunto não são eles. É o país. A pergunta não é quem terá a coragem de reconhecer o erro. É o que Portugal escolherá: corrigir agora, imitando a social-democracia séria que já o fez, ou insistir na defesa do erro e pagá-lo, outra vez, caro. A resposta ainda está em aberto. Os números, esses, já não estão. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico