IA ou fábrica de pessoas-'robot'?

Carla Geraldes

Project manager na LTPlabs

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Não se atrasa, não se distrai e escreve um e-mail “profissional, empático e orientado para solução” em poucos segundos. Aquela resposta difícil a um cliente insatisfeito, que antes exigia café, ponderação e três versões diferentes? Resolvida à primeira tentativa.

As apresentações surgem estruturadas, com três pilares estratégicos, uma narrativa fluida e uma conclusão inspiradora que termina quase sempre com uma visão de futuro.

Funciona. É rápido. É eficaz.

E talvez seja precisamente esse o problema: começa tudo a funcionar bem demais, e a soar igual.

Os e-mails têm todos a mesma cordialidade equilibrada. As mensagens começam com “Esperamos que esta mensagem o encontre bem” e terminam com “Permanecemos ao dispor para qualquer esclarecimento adicional”. As apresentações seguem fórmulas semelhantes, com títulos fortes e bullet points impecáveis. Se retirássemos as assinaturas, seria difícil perceber quem escreveu o quê.

Estamos mais produtivos. Mas estamos também mais uniformes.

Quando usamos as mesmas ferramentas, com os mesmos prompts e as mesmas estruturas, o resultado tende a ser parecido. A linguagem fica neutra, global, correta. Desaparecem as expressões próprias, o humor subtil, a forma particular como cada um explica um conceito ou defende uma ideia. Perdemos os pequenos desvios que revelam personalidade.

E, no entanto, há algo que a AI não replica.

Pode escrever “Compreendemos a sua frustração”. Mas não se lembra de que aquele cliente específico prefere uma chamada direta em vez de um e-mail elaborado. Não sente que, naquele contexto, uma resposta mais simples e frontal teria mais impacto do que um texto perfeitamente diplomático. Não percebe que, numa reunião, o silêncio de alguém significa dúvida e não concordância.

Empatia não é uma palavra bem colocada. É escuta atenta. É perceber o tom, o ritmo, a hesitação. É ajustar o discurso em tempo real. É decidir ligar em vez de responder por escrito. É saber quando insistir e quando recuar.

O instinto, essa capacidade quase invisível de ler o contexto, continua a ser humano. A sensibilidade para adaptar uma proposta ao momento do cliente não nasce de um algoritmo. Nasce de experiência, relação, memória e, sobretudo, de bem-querer: fazer bem porque nos importamos genuinamente com o impacto do nosso trabalho.

A tecnologia pode organizar ideias, evitar erros e acelerar processos. E devemos usá-la. Seria pouco sensato ignorar o seu potencial. O risco não está na utilização; está na dependência acrítica. Está em aceitarmos a primeira versão como definitiva. Em deixarmos que a voz neutra substitua a nossa.

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