Hepatites e cancro do fígado: desigualdades em Portugal e na Europa

Ana Varges Gomes

Médica oncologista na Unidade Local de Saúde do Algarve (ULSA) e líder do Work Package 2, responsável pela Comunicação da EUnetCCC

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As cinco primeiras letras do alfabeto bastam para designar os vários tipos de vírus da hepatite, que provocam inflamação do fígado e estão frequentemente na origem de cancros. A descoberta desta relação, no caso da hepatite B, ocorreu em 1964 e valeu ao médico e geneticista Baruch Samuel Blumberg (1925-2011) o Prémio Nobel da Medicina em 1976. É em sua homenagem que a Organização Mundial de Saúde (OMS) assinala, em 28 de julho, o Dia Mundial das Hepatites. E que julho é o Mês de Consciencialização para as Hepatites Virais.   

Do ponto de vista da saúde pública, a ameaça de hepatite, em particular A e B, conta hoje com uma resposta sob a forma de vacinas: a da A, recomendada para grupos de risco ou viagens, é administrada mediante receita médica, e a vacina da hepatite B integra o Programa Nacional de Vacinação (PNV), sendo administrada em três doses, entre o nascimento e os 6 meses de idade.

Onde se torna relevante a relação das hepatites com o cancro?

A infeção pelos vírus da hepatite B, C ou D pode causar hepatite crónica, e esta potencia, mais tarde, o desenvolvimento de cirrose e cancro do fígado. No caso da hepatite C, esta também pode causar um tipo de cancro do sistema linfático, o linfoma não-Hodgkin. A hepatite D ocorre apenas em pessoas infetadas pelo vírus da hepatite B. Por seu turno, a hepatite B e a hepatite C são reconhecidas pela Agência Internacional para a Investigação do Cancro (IARC) como carcinógenos humanos. No caso das hepatites A e E, estas podem causar doença hepática durante um período entre semanas e meses, mas a maioria dos infetados recupera sem danos permanentes.

Na hepatite viral crónica B (com ou sem hepatite D associada) ou C, a maioria dos casos de cancro do fígado (carcinoma hepatocelular) está associada à resposta imunitária do organismo visando reparar a lesão hepática crónica, resultando em fibrose hepática (formação de cicatrizes). Casos graves podem levar a cirrose, problemas na função hepática e aumento do risco de cancro do fígado por via dos danos no ADN das células hepáticas em rápida regeneração. A cirrose hepática está presente em 80 a 90% dos doentes com hepatite viral crónica B que desenvolvem carcinoma hepatocelular.  

A dimensão do problema é real. Em 2024, de acordo com os dados disponibilizados pelo INE, refere o Relatório 2026 do Programa Nacional para as Hepatites Virais, publicado pela Direção-Geral de Saúde (DGS), morreram em Portugal 1414 pessoas por neoplasias malignas do fígado e das vias biliares intra-hepáticas (627 por carcinoma hepatocelular e 605 por colangiocarcinoma intra-hepático, os números mais elevados dos últimos oito anos), 873 pessoas por doenças crónicas do fígado e cirrose, 353 pessoas por neoplasia maligna da vesícula biliar, e 53 pessoas por hepatites virais, o que representa um total de 2693 óbitos. Uma das principais causas foi a doença hepática alcoólica, responsável por 50 a 60% das mortes por doenças crónicas do fígado e cirrose.

Na Região Europeia da OMS, estima-se que 15 milhões de pessoas vivam com hepatite B e 14 milhões com hepatite C. A maioria destas pessoas desconhece estar infetada, arrisca desenvolver doença hepática crónica grave, eventual evolução para cirrose e/ou carcinoma hepatocelular, e podem transmitir os vírus de que são portadoras.

Na União Europeia (UE27), o European Cancer Information System (ECIS) mostra que a probabilidade de desenvolver cancro do fígado varia com o género, a idade e a geografia em que os pacientes habitam. Em 2022, o cancro do fígado era o 15.º cancro mais diagnosticado e a 8.ª causa de morte entre as mulheres; no caso dos homens era duas vezes mais frequente, o 10.º, e o 6.º na lista das causas de morte por cancro.

O risco estimado de o desenvolver ao longo da vida (0-74 anos) era de 1/333 nas mulheres e de 1/91 nos homens. Como resultado, 20.064 mulheres e 42.060 homens seriam diagnosticados, e 17.759 mulheres bem como 36.406 homens morreriam de cancro do fígado. Só que, nas mulheres, dois terços dos casos estimados ocorreriam após os 70 anos; nos homens, quase metade ocorreriam nos 45-69 anos e a outra metade após os 70 anos.

Entre os países da UE-27 as taxas estimadas de incidência de cancro do fígado variavam: nas mulheres, as taxas variavam de 4,7 novos casos por 100.000 em Malta para 12,1 por 100.000 na Roménia (mais do dobro); nos homens, as taxas variavam ainda mais, de 10,0 novos casos por 100.000 na Polónia para 29,5 na Roménia (quase o triplo). Relativamente à mortalidade por cancro do fígado os padrões de variação eram semelhantes.

Ainda de acordo com o ECIS, os fatores que contribuem para as desigualdades entre os países da EU a 27, relativamente à incidência e mortalidade do cancro do fígado, incluem a prevalência variável dos principais fatores de risco modificáveis – infeção viral por hepatite B (com ou sem hepatite D associada) ou C, consumo de álcool, tabagismo e excesso de peso/obesidade – e também, desempenhando um papel importante, as desigualdades a nível da cobertura vacinal contra a hepatite B, bem como a nível do diagnóstico e tratamento do cancro do fígado.

A EUnetCCC, Ação Conjunta Rede Europeia de Centros Compreensivos de Cancro, vem dar uma resposta importante a essas desigualdades, visando assegurar que, em 2028, 90% dos europeus tenham acesso equitativo a cuidados oncológicos de qualidade, e de forma adequada ao seu caso.  Principal ação da quinta iniciativa emblemática do Plano Europeu de Luta Contra o Cancro (EBCP), lançado pela Comissão Europeia em fevereiro de 2021, está ancorada nos sistemas nacionais de saúde e reforçada pela cooperação europeia. A EUnetCCC está a construir uma Rede Europeia de Centros Compreensivos de Cancro (CCCs) capaz de traduzir a excelência clínica e científica em benefícios concretos a nível da prevenção e acesso a cuidados oncológicos de elevada qualidade, independentemente do país ou região de residência.

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