Há mais milionários portugueses graças aos imigrantes? 

Pedro Tadeu

Jornalista

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Entre 2023 e 2025, Portugal passou de cerca de 172 mil para 181 mil milionários. Ao mesmo tempo, a riqueza média cresceu, mas a riqueza mediana recuou desde a pandemia. Ou seja: o topo ficou mais rico, enquanto o português mediano ficou mais pobre. 

Esta notícia, que li no Expresso, citando o Global Wealth Report 2026, divulgado pelo banco suíço UBS, quase não era, na verdade, notícia — há quantos anos as estatísticas comprovam que a riqueza global cresce, mas está concentrada em poucas pessoas? Notícia, de facto, seria a inversão dessa tendência... 

O debate sobre como diminuir o fosso entre ricos e pobres em Portugal não se faz. Pelo contrário, as políticas governamentais sustentadas na tese de que “é preciso fazer crescer agora a economia para, mais tarde, distribuir a riqueza criada” ignoram a história, em Portugal e no mundo, que comprova que esse mecanismo nunca funciona. 

O debate que não cessa no nosso país é o do aumento da imigração que ocorreu exatamente nesse mesmo período de crescimento do número de milionários, como confirma o tardio acerto dos números demográficos do INE, agora divulgado, e que causou um novo burburinho político.  

Significativamente, não se debate se a imigração contribuiu, ou não, para o aumento das desigualdades na distribuição da riqueza. Não será o fator principal, pois o crescimento do número de milionários parece dever-se sobretudo à valorização do imobiliário, à subida dos ativos financeiros e à concentração patrimonial. Mas, em setores como a agricultura intensiva, a hotelaria, a restauração, a limpeza, a construção civil, a distribuição e os serviços de apoio, os imigrantes em situação frágil ajudam a manter baixos os salários oferecidos. 

A OCDE encontrou para Portugal uma diferença salarial média de 28% entre imigrantes e nativos comparáveis. É aqui que está o mecanismo. Quando há trabalhadores com dificuldades de regularização, dependentes de intermediários, com menos redes familiares, menor domínio da língua, menos protecção sindical e medo de perder o contrato, o poder negocial desce. E, quando o poder negocial desce, o salário tende a ficar onde o patrão consegue mantê-lo. A exploração da vulnerabilidade migrante permite ao capital resistir à subida dos salários. 

Isto não afeta apenas os imigrantes. Também pesa sobre os trabalhadores portugueses. Se uma empresa consegue preencher vagas pagando o salário mínimo ou pouco mais, com horários longos, alojamento indigno ou subcontratação opaca, fica reduzida a pressão para melhorar salários e condições. Por outro lado, o referencial geral dos salários mantém-se a um nível baixo, dificultando o seu aumento geral. 

A imigração, neste quadro, funciona como almofada de um modelo de baixos salários. Não criou esse modelo, que já existia em Portugal muito antes da vaga migratória recente, mas ajuda a prolongá-lo. 

A conclusão política é clara: combater esta realidade não passa por fechar a porta aos imigrantes, mas por fechar a porta à exploração. Regularização séria, mas rápida, inspeção laboral forte, combate à subcontratação abusiva, salários mínimos setoriais dignos, alojamento fiscalizado, sindicalização e igualdade de direitos são medidas de defesa dos imigrantes e dos trabalhadores portugueses. 

Isto, sim, resolveria o problema da imigração em Portugal, porque o verdadeiro conflito não é entre quem nasceu cá e quem chegou de fora. É entre quem vive do trabalho e quem lucra com a sua desvalorização.

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