A adesão e o impacto da greve geral de hoje – convocada pela CGTP, mas não apoiada pela UGT – vai permitir leituras muito mais profundas do que o habitual “o país e os trabalhadores estão descontentes com a reforma laboral e com as políticas deste Governo”. Em primeiro lugar, poderemos ver se é mesmo “extemporânea”, como disse a UGT para justificar a falta de endosso. E, depois, dará para perceber o verdadeiro peso da UGT nas ruas e não apenas na sede do PS. É um facto. A reforma “Trabalho XXI”, apresentada pelo Governo – quase de surpresa – no verão passado, suscitou críticas proveniente de um leque bastante alargado de setores, não só sindicais. Praticamente todos os partidos da oposição com peso arrasaram o documento inicial – com mexidas polémicas em mais de 100 artigos do Código Laboral. As alterações nas regras relacionadas com a amamentação, dos bancos de horas individuais ou das regras de subcontratação encheram páginas e pasmaram muitos cidadãos. O seu protesto e contestação são completamente legítimos e devem ser tidos em conta pelo Governo..Os patrões gostaram, mas até eles viram ali imenso espaço para cedências em Concertação Social, como se viu pela última investida da CIP para levar, pelo menos, a UGT a assinar um acordo. Após meses de conversas e reuniões técnicas, em dezembro, a CGTP e a UGT uniram-se numa paralisação nacional, algo que não se via há mais de uma década.O documento está agora no parlamento, com algumas (poucas) mexidas face ao anteprojeto de lei, e sem um caminho de aprovação claro. Foi precisamente este facto – o de o documento ainda nem sequer ter sido discutido na AR – que levou a UGT a afastar-se desta greve de hoje. Para a CGTP, este é um momento tão bom para um protesto como outro qualquer. A intersindical tem vindo a perder sindicalizados e sindicatos filiados a um ritmo seguro. Em 1990 reunia 200 sindicatos filiados. Atualmente apenas 79. Menos de metade. Quanto ao número de sindicalizados, estará em cerca de 565 mil, quando no início da década de 90 era de mais de 800 mil.A força que ainda tem nos sindicatos da Função Pública, na Educação e nos Transportes precisa de demonstração pública e o crescente número de greves em Portugal mostram isso. Em 2024 fizeram-se 219 greves em Portugal, números apenas comparáveis com o início dos anos 2000.."Em primeiro lugar, poderemos ver se é mesmo 'extemporânea', como disse a UGT para justificar a falta de endosso. E, depois, dará para perceber o verdadeiro peso da UGT nas ruas e não apenas na sede do PS.".A central sindical com mais ligações ao PCP está em luta pela sobrevivência e a polémica reforma laboral da ministra do Trabalho, Maria da Palma Ramalho, é um excelente tónico. Uma forte adesão hoje e um impacto significativo no “Índice de Atividade Económica” medido pelo Banco de Portugal (que caiu 8% na greve geral de 11 de dezembro), será o catalisador que precisava para um avolumar de contestação nas ruas. Uma greve geral com forte adesão e consequente impacto palpável na economia do país também põe em perspetiva o peso real da UGT, que oscila entre a viabilização histórica de acordos de concertação (tanto em governos PS como PSD) e o atual passeio de mão dada com a liderança de José Luís Carneiro no Partido Socialista.A greve de hoje pode ser um “teste do algodão” da influência atual e futura da UGT. Pode gostar-se mais ou menos do “teste do algodão”, mas em política, como noutras áreas da sociedade civil, uma coisa é certa: “o algodão não engana”.