G7 e a Ucrânia: mais guerra ou investir na diplomacia?

Victor Ângelo

Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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A cimeira do G7 de 2026, em Évian, voltou a colocar a Ucrânia no centro da agenda. E seguiu, no essencial, uma linha já conhecida desde 2022: a reafirmação do apoio a Kiev, a condenação da Federação Russa e promessas de mais armamento. Mas, desta vez, a declaração final soou mais a ritual do que a estratégia. Resumiu-se a frases vagas. Por detrás da fachada de coesão, das sanções e dos compromissos militares, a pergunta central ficou por responder: como transformar o apoio à Ucrânia numa estratégia que conduza ao fim da brutal agressão russa?

Os líderes presentes elogiaram a resiliência ucraniana e prometeram reforçar a produção de armamento, vital para a defesa da Ucrânia, sobretudo a antiaérea. Todavia, a ausência de uma aposta séria na diplomacia foi gritante. Faltou uma afirmação clara: a paz não é apenas uma necessidade estratégica. A diplomacia é a única saída para evitar o agravamento da situação e para fazer renascer a esperança no Direito Internacional e nos mecanismos multilaterais.

Continuar o conflito indefinidamente não beneficia ninguém. Drena recursos que deveriam ser destinados a outros desafios urgentes e acarreta custos humanos trágicos, e dispêndios materiais crescentes, cada vez mais difíceis de mobilizar.

Para a Ucrânia, trata-se, antes de mais, de uma ameaça à própria sobrevivência do Estado. Cada dia adicional de agressão significa mais economia desfeita, novas infraestruturas civis destruídas e menos receita fiscal para sustentar serviços básicos – sem esquecer o custo mais intolerável de todos, a perda contínua de vidas humanas. Quanto mais se prolonga a guerra, mais difícil se torna a reconstrução do país.

Para a Rússia, a continuação do seu erro agrava a erosão da economia e da sociedade. A fuga de quadros qualificados e de capitais, as carências tecnológicas e o resto, tudo se esconde por detrás de uma “economia de guerra” cuja lógica é de natureza imperialista. Trata-se, afinal, de assegurar a sobrevivência do regime, não a segurança do país. As indústrias e os serviços ligados à guerra e à militarização da economia passaram a ser os motores do PIB e do emprego. E as perdas humanas russas são incalculáveis.

Para a Europa, o custo não é abstrato. O conflito veio expor as nossas dependências externas em matéria de energia, cibernética, segurança e defesa. E está a causar uma crescente pressão orçamental. Financiar a nossa soberania e apoiar a legítima defesa da Ucrânia não fica barato. É preciso encontrar verbas extraordinárias que competem com outras prioridades, enquanto a instabilidade e a inflação alimentam uma fadiga política crescente. É essa fadiga que ameaça testar a coesão do bloco ocidental nos próximos anos – sobretudo se a opinião pública começar a perguntar, com razão, quais são os planos e o calendário.

Há ainda um custo que raramente entra nesta contabilidade: o risco de uma escalada incontrolável. Quanto mais tempo a guerra se arrastar, maior será a probabilidade de um incidente isolado – uma resposta desproporcionada – arrastar outros atores para o conflito. É precisamente esse risco que ficou exposto nos últimos dias.

Enquanto decorria a cimeira de Évian, uma fragata russa disparou tiros de aviso contra um iate britânico que atravessava o Canal da Mancha. O motivo não deve ser dramatizado – a embarcação navegava a pouca distância da fragata e os disparos podem ser justificados como um sinal de advertência à navegação. O que conta é o significado simbólico. O incidente com a fragata, que anda naquelas águas num vaivém destinado a proteger militarmente os petroleiros-fantasmas que procuram furar as sanções, sublinha que a linha da frente russa pode facilmente expandir-se para o ocidente europeu.

Para além do Báltico, do Mar Negro e do Ártico, o Canal da Mancha tornou-se um dos pontos mais sensíveis de fricção estratégica entre o Ocidente e a Rússia. É a autoestrada marítima mais congestionada do planeta, onde qualquer manobra militar russa se cruza inevitavelmente com o tráfego civil. Recebe agora uma atenção coordenada entre as marinhas britânica e francesa, bem como dos dispositivos navais da NATO – mas o risco de um erro de cálculo tem um alto nível de probabilidade. Nos últimos meses, com a NATO, as marinhas britânica e francesa escalaram o alerta no canal perante as provocações de Moscovo: espionagem do navio Yantar em novembro, submarinos em abril e a interceção de navios da frota de petroleiros-fantasmas russos.

Permanece a dúvida sobre se a cimeira reconheceu que a guerra russa na Ucrânia chegou a uma encruzilhada: ou dá lugar a um processo de negociações ou entra numa espiral, num ciclo que se autoalimenta, em que cada lado interpreta a ação do outro como uma justificação para escalar a sua própria resposta.

Defender a paz não pode significar a capitulação da Ucrânia, nem aceitar um armistício vago que congelasse a agressão hoje apenas até uma inevitável nova invasão russa amanhã. Exige, isso sim, coragem política para criar condições para um cessar-fogo verificável, com garantias de segurança, mecanismos de fiscalização internacional e um processo político capaz de conduzir a uma paz duradoura.

Esse mecanismo deveria funcionar como antecâmara para uma mediação multilateral genuína. Para que isso seja possível, devemos articular uma narrativa que até agora não existiu – a garantia clara de que não se trata de decidir o destino interno da Rússia, mas sim de reafirmar a primazia do Direito Internacional como base das relações entre Estados.

Devo recordar que a diplomacia continua a ser a única alternativa para conseguir a paz. Destaco, por isso, o memorando de entendimento assinado esta quarta-feira entre os Estados Unidos e o Irão. É um exemplo positivo, mesmo tendo em conta que a sua implementação enfrenta um campo minado de obstáculos: a dimensão ambígua de alguns pontos do memorando; a instabilidade política dos EUA; os interesses da Guarda Revolucionária iraniana, que beneficia descaradamente da economia paralela criada pelas sanções e resiste a qualquer abertura; e a oposição das potências regionais como Israel, um país que encara qualquer concessão ao Irão como uma ameaça existencial. Mas o memorando e as negociações que se deverão seguir podem ser vistos como um exemplo pelas partes em conflito na Ucrânia. Nomeadamente, lembram-nos que o tempo urge: sem um plano concreto – mandato da ONU, missão de verificação, fundo de reconstrução e calendário de negociações – arriscamo-nos a perpetuar um conflito que ninguém pode suportar indefinidamente.

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