Frida Kahlo: irreverência, influência e coragem

Helena Mendes Pereira

Gestora cultural e curadora

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Frida: The Making of an Icon, patente na Tate Modern, em Londres, até 3 de janeiro de 2027, é bastante mais do que uma retrospetiva de Frida Kahlo (México, 1907-1954): é uma exposição sobre a construção - e a apropriação - de uma das imagens mais reconhecíveis da cultura visual do século XX. Trata-se de uma coprodução com o Museum of Fine Arts, Houston (EUA) reúne cerca de 30 obras da artista, entre as quais Self-Portrait (With Velvet Dress) (1926), Memory (The Heart) (1937), The Frame (1938), My Dress Hangs There (1933–38) e Self-Portrait with Thorn Necklace and Hummingbird (1940), com destaque, naturalmente, para os autorretratos. A pintura surge, contudo, integrada num dispositivo documental que inclui fotografias, filmes domésticos, materiais de arquivo, vestidos tradicionais do México, joias e outros objetos pessoais, revelando até que ponto Kahlo foi também uma autora consciente da sua imagem pública.

Nascida em Coyoacán, Cidade do México, Frida Kahlo começou a pintar de forma continuada depois do grave acidente de autocarro de 1925, que lhe deixou sequelas permanentes. A dor, a deficiência, a sexualidade, a identidade mexicana e o compromisso político tornaram-se matérias de uma obra íntima e de enorme intensidade simbólica. Casou em 1929 com Diego Rivera (México, 1886–1957), de quem se divorciou em 1939 e com quem voltou a casar no ano seguinte. Morreu em 1954, aos 47 anos, com uma vida marcada pela sua irreverência e coragem e pela forma como transformou a dor e a perda em matérias primordiais da sua produção artística.

A exposição é especialmente interessante porque não a isola. Coloca-a junto de figuras do seu círculo afetivo e artístico: Rivera; Jacqueline Lamba (França, 1910–1993), pintora surrealista e amiga próxima; e Nickolas Muray (Hungria/EUA, 1892–1965), fotógrafo, amante e depois amigo, autor de alguns dos seus retratos mais célebres. Esta rede permite compreender Frida menos como génio solitário do que como participante ativa do modernismo mexicano e de circuitos internacionais ligados ao surrealismo, à fotografia e à política.

Mais decisivo é o diálogo com artistas posteriores. Judy Chicago (EUA, 1939), Ana Mendieta (Cuba/EUA, 1948–1985), Kiki Smith (EUA, 1954), Yasumasa Morimura (Japão, 1951) ou Martine Gutierrez (EUA,1989) mostram como a sua obra continua a alimentar práticas sobre corpo, autorrepresentação, género, sexualidade, raça e deficiência. Kahlo foi precursora ao fazer do próprio corpo um campo político: a roupa masculina, o cabelo cortado, o discreto bigode e a exposição da dor física e das experiências reprodutivas recusam modelos convencionais de feminilidade e identidades rígidas.

O mérito crítico da mostra está em confrontar esta potência com a “Fridamania”. A última secção reúne mais de 200 objetos comerciais - de T-shirts a perfumes e bonecas - e torna visível um paradoxo: uma artista que construiu uma imagem singular, política e autobiográfica acabou convertida numa marca global, àquilo que hoje designaríamos como influência. A Tate Modern, o museu dos museus da arte contemporânea, procura separar sem desligar a obra do mito, lembrando que o alcance de Frida Kahlo não reside apenas no rosto que todos reconhecem, mas na forma radical como transformou vida, corpo e identidade em linguagem artística.

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