Francisco tirou Jesus da Cruz

Manuel José Guerreiro

Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

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S. Francisco de Assis morreu há 800 anos. No próximo 4 de outubro, dia da efeméride, o mundo recordará, pelo menos assim o espero, um dos santos e teólogos mais importantes da história da Igreja Católica, mas também, e sobretudo, celebrará um revolucionário que mudou como poucos, antes ou depois dele, a forma como pensamos, julgamos, culpamos ou sentimos. É difícil encontrar alguém assim. Que, pelo exemplo, tenha oferecido uma nova possibilidade de ver o mundo, de o compreender e problematizar.

Retirou Jesus da Cruz, viveu os seus ensinamentos, misturou-se com os pobres, rompeu com as trevas e o medo do Inferno, inventou a doçura como modo de chegar ao outro e a Deus. Foi Jesus depois de Jesus. Foi o primeiro ecologista antes de existir a palavra. Influenciou artistas, antecipou o Renascimento, abriu a porta à Literatura escrita sem ser em latim, A Divina Comédia nunca teria sido escrita por Dante sem esta revolução.

Mas fez mais, muitíssimo mais. Inventou um novo modelo alternativo à acumulação de riqueza, lançou as bases do cooperativismo moderno e da Economia Social, inventou o conceito de fraternidade como arma social de combate, estabeleceu uma relação diplomática com o Islão, criando condições para a paz e diálogo religioso.

Difícil encontrar uma efeméride tão relevante para a civilização Ocidental. Francisco de Assis mudou o mundo e o cristianismo. Preferiu a luz ao calvário, o abraço aos desprotegidos à contemplação e o amor à expiação. Neste tempo individualista, com tanta falta de empatia, celebrar S. Francisco de Assis é urgente e necessário, talvez nunca o tenha sido tanto.

Para mim, e se me lê compreenderá, é especial. Tento que este nosso diálogo seja coerente com um conjunto de ideias em que acredito. A Economia Social, o trabalhar em função da soma de vontades, das comunidades, do amor pelo trabalho, do respeito pela terra… todos estes valores têm uma história e protagonistas, gente que arriscou e ofereceu o melhor de si. S. Francisco de Assis foi o percursor de muito do que somos e acreditamos. Uma parte importante da identidade portuguesa não existiria sem Francisco de Assis e os Franciscanos.

E sem essa extraordinária figura, hoje descaracterizada, que foi Fernando Bulhões, conhecido na Históriaf como Santo António. Mais do que ninguém foi o ideólogo da doutrina de Francisco de Assis de quem foi contemporâneo. Sto. António não era um pacato sacerdote e poeta, mas sim um feroz e implacável combatente contra a heresia dos que desvirtuavam o nome de Deus, dos corruptos de alma e materialistas.

Castela nunca abriu totalmente as portas aos Franciscanos, preferiu sempre a hierarquia conservadora dos Dominicanos. Portugal foi o lugar onde as raízes de Francisco se espalharam mais rapidamente, graças a António que, em Lisboa ou em Pádua, cruzava as escrituras com textos clássicos e reinventou o modo de estar perante o sagrado. Não havia comunicador como ele, milhares de pessoas ouviram-no pregar contra os privilégios dos ricos, contra a miséria dos pobres e contra a corrupção de muitos padres.

É o próprio Francisco de Assis quem reconhece e nomeia Santo António como o primeiro teólogo dos franciscanos. É isto que celebramos. Não apenas um Santo ou um Homem, mas uma ideia.

E, num certo sentido, um país que nasceu deste caldo cultural e filosófico. Em 1938, Agostinho da Silva publicou A Vida de Francisco de Assis reconhecendo-o como figura maior, um revolucionário da Humanidade. Uma metáfora para os tempos que se viviam… Agostinho publicou o livro meses antes do início da II Guerra Mundial. Também hoje temos medo do fim dos tempos, como nos dias em que Francisco de Assis combateu com a força do seu pensamento. Ou como nos dias em que Agostinho da Silva desafiou as trevas lembrando o Homem que, no próximo outubro, olhará cá para baixo sabendo que não o esquecemos.

Nesse dia 4 no Convento do Varatojo (o mais antigo em funcionamento da Europa), em Torres Vedras, teremos missa pontifical, presidida pelo Senhor Cardeal Patriarca transmitida em direto pela TVI. Durante a missa com coro e orquestra ouviremos uma composição original do Cântico das Criaturas, do maestro Vitorino de Almeida, com letra de S. Francisco. Este evento comunitário terá o apoio da Caixa Agrícola de Torres Vedras.

manuel.guerreiro@ccamtv.pt

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